domingo, 5 de abril de 2015

DO BURN-OUT AO TÉDIO ( ou o Meu Ensaio Sobre o Fim da Nossa Idade )
"Os ritos culturais que se formam no decorrer da História - não são incorporados no património hereditário; são transmitidos pela tradição e cada indivíduo tem de os aprender de novo. Se se pretende estabelecer uma fronteira entre o "animal" e o homem seria precisamente aqui que ela poderia ver-se . É verdade que nos animais uma experiência individualmente adquirida se transmite igualmente por ensino e aprendizagem, dos indivíduos mais velhos aos mais novos. Mas essa tradição só existe autenticamente nas espécies animais em que uma boa capacidade de aprender se encontra aliada a uma vida social altamente desenvolvida (....) ,O elemento indispensável que estas tradições animais muito simples têm em comum com as tradições culturais é o hábito. Preservando com tenacidade o que já foi adquirido, este desempenha um papel análogo ao do património hereditário na formação filogenética dos ritos".
( Konrad Lorenz )
1 -Aqui há uns meses atrás começei a ter falhas de memória para factos recentes , a sentir um cansaço inexplicável, a ter um sono de tal modo plúmbeo que dormia toda a tarde, e até passei a adormecer a ver filmes às nove da noite, e , sobretudo a imergir num estado estuporado de estupor que quebrando a minha vontade me tornava um inútil. Mas pior, esquecia palavras comuns, obrigando-me a ir às escondidas ao dicionário em busca delas , e ainda pior, não sentindo qualquer vontade sobre o quer que fosse sem que isso me incomodasse muito, desinteressando-me do mundo ( deixei de ler o Expresso , o meu maior culto, sem que isso me incomodasse ), de ver filmes , de querer saber, de me preocupar com os outros, de me emocionar com nada.
Lembrava-me muito vagamente que se calhar aquilo era um Alzheimer em início e num determinado dia tive a elação suficiente para comunicar formalmente à minha mulher que devia estar a começar um Alzheimer mas que não tomava o famigerado Aricept a 5mg porque me lembrava de experiências antigas de quando exercia psiquiatria, de que aquela droga melhorava facilmente o doente, para depois de poucos meses o obrigar a dobrar a dose e finalmente levar a família a assistir à sua queda psicológica a pique. Portanto , disse eu à minha mulher, poupava o medicamento para uma fase mais adiantada da doença.
Pouco depois do aviso familiar dramático , tive a sorte de uma colega médica pneumologista me fazer três perguntas e declarar :- " o que tu tens são apneias de sono e vais fazer o competente exame diagnóstico !". E assim foi. E quando finalmente veio o resultado em letra grossa e preta eu tinha um sindroma de apneia do sono grave, com situações em que numa hora ( de 60 minutos - que é o costume , como é sabido ter 1 hora ) eu só respirava uns 10 minutos. Quer dizer eu não oxigenava os neurónios.
Começei também a ter sentimentos de estranheza da realidade envolvente a que chamamos desrealização , mas não cheguei ao ponto de ter sentimentos de estranheza sobre mim a que chamamos despersonalização - a qual já tinha tido numa muito envolvente relação sexual a qual me meteu medo a tal ponto que nunca mais quis ver a minha amante. E , daqui nasceu em mim uma espécie de clareza na diferença entre um demente ( Alzheimer ) onde o doente pode dizer " quando eu era eu ", sem angústia e sabendo que é o mesmo doutra maneira , e o ser psicótico do "quando eu era mim" ) sentindo que naquele momento ( porventura orgástico ) é mesmo outro, de tal modo que o que se passa à volta é voluntariamente indiferente.
Deste modo e com tais exteriências eu acho que fiquei a saber como se sente um demente e um psicótico. Em qualquer dos casos não senti tédio...
2 -Quando por volta de 2003/4 , fui convidado para no Alentejo fazer uma conferência para psiquiatras de todo o país subordinada ao tema " qual a doença mental será prevalecente no sec. XXI", falei do TÉDIO.
Achei que o tédio se iria transformar em coisa tão pesada que ganharia foros de doença mental. Recordo que estavamos instalados numa das melhores Pousadas do Alentejo , que era previsto eu começar a Conferência após o jantar por volta das dez da noite - o que aconteceu - e acabar por volta das 11,30 - o que também sucedeu. O que não estava previsto era que depois das perguntas e minhas respostas, a discussão cada vez mais acalorada dos meus colegas se prolongasse até às três da madrugada.
A coisa foi continuando com a maioria dos meus colegas a considerarem que tédio sempre existira e que por mais modernices que o novo século troussesse com ele a coisa não seria diferente.
Eu tinha tentado explicar que a vida familiar, profissional e social iria sofrer mudanças demasiado grandes para que o tédio antigo tivesse muito que ver com o que aí vinha , mas a minha ideia dificilmente passava. Diziam-me, basicamente , que o que iria acontecer era um aumento do stress mas que isso nada tinha a ver com o tédio.
Eu expliquei que -do que se conhecia da fisiologia - o stress era uma resposta do organismo a uma sobrecarga de "problemas" de todo o tipo, mas a generalidade deles dizia que era a mesma coisa. Defendi que o stress era uma resposta do organismo com um mediador celular que era sobretudo a cortisona e que quando alguém submetido a um espaço temporal grande de estimuladores de stress, esgotava a sua capacidade de produzir cortisol e outras substancias que o suportavam como a testosterona , a partir do esgotamento destas aquilo que se poderia prever era aquilo a que antigamente se chamava depressão de esgotamento e mais actualmente esgotamento por stress. E também fiz finca-pé em que alguém colocado em situações de se ultrapassar a si mesmo no trabalho ou "na performance " familiar, social ou económica em exclusividade ou muito predominantemente numa elas , cairia necessariamente numa falta de prazer total ( mediada por um neuro-mediador chamado dopamina que não se re-produz , como tudo na vida, indefinidamente) e que pela sua falta geraria um estádio de espírito de tédio crónico que , por isso, de tão crónico, seria doença mental. E por ali nos quedamos -nessa noite sem tédio nenhum...
3- Na verdade a impressão com que fiquei é que no caso da experiência sexual a dimensão que imperava era brutalmente mística, de fusão com a outra pessoa e o sumiço do mundo em redor, com a consequência da minha individualidade se dissolver em nenhures - será coisa assim que sentem os esquizofrénicos descompensados ?
Por outro lado nesta minha recente experiência de largas semanas de indiferença por causa da apeneia do sono , o sentimento era muito próximo da apatia -que se referia muito mais aos outros e à realidade envolvente do que a mim mesmo.
Aqui não resisto a socorrer-me da Retórica de Aristótoles. Nós passamos a vida num eterno diálogo, mais ou menos consciente entre o nosso Eu ( o Je dos franceses ) e o nosso mim ( o moi dos mesmos franceses), sendo que o EU é uma estrutura de dentro para fora e o MIM uma outra de fora para dentro da nossa identidade. Mas ambos são necessários a essa identidade. Ora que nos ensinou Aristóteles?
Um dos dos principais elementos do CORPUS ARISTOTELICUM É A PSICOLOGIA. E é aí que nesta secção ele inclui: DA ALMA e os PARVA NATURÁLIA que contém 8 pequenos tratados ( e reparem agora nos seus nomes ): " da sensação e do sensível", "Da memória e da reminiscência", "Do sono", "Das insónias", "Da adivinhação pelo sono", Da vida longa e da vida breve", "Da vida e da morte", e ,finalmente...., "Da respiração"!!!
Se isto, sabendo nós que as apeneias do sono matam, provocam mau dormir (insónias ) e perturbam a memória como ficou dito no meu ponto 1., se este homem, Aristóteles não era um génio eu , então, não sei o que é um génio !. E a retórica aristotélica apela à audiência em três frentes: o Logos, o Pathos e o Ethos, sendo que a credibilidade do que dizemos e manifestamos radica no Ethos; as emoções e os afectos dos outros a quem nos dirigimos é o seu Pathos; e a densidade e solidez da razão lógica estão no Logos. E é na dialética que estes três jogadores jogam o jogo da vida , entre o nosso EU e o nosso MIM, que a retórica nos prende a atenção e nos afasta do Tédio.
Vem isto a propósito de eu em ambas as experiências ( a sexual e a resultante das apneias do sono ) ter visto afectados e diminuídos o Ethos, o Pathos e , por consequência, o Logos : daí os sentimentos de despersonalização e desrealização e consequente ausência de vontade. Mas não senti tédio, o que chama a atenção para que este sentimento possa ser de qualidade muito diferente de todos os outros e tudo o mais que da psique conhecemos.
4- Dado que a vontade é alavancada pelo conhecimento, que o conhecimento é alimentado pelo informação que nos chega, que o conhecimento assim gerado define os nossos desejos e a sua importância para nós, e que são os desejos que comandam os nossos actos , poder-se-ia dizer que " o viver habitualmente " de Salazar , ou como também disse Fernando Pessoa o " viver quotidianamente todos os dias ", seriam uma expressão máxima de tédio.
Todavia não foi o que aconteceu. Realmente a informação sendo necessária para o conhecimento ( que por sua vez nos faz desejar coisas e por isso nos faz mover ) pode ser inconveniente, paradoxalmente . Ela pode não servir para nos trazer conhecimento em duas situações antagónicas : quando não chega por ser muito pouca, ou...quando é excessiva e provoca uma espécie de saturação do Eu e do Mim. No primeiro caso não tendo sobre que pensar porque outro pensa por nós, não tendo que escolher porque outro escolhe por nós, o nível de vigilidade com que vivemos a vida é muito baixo e a lucidez tende a ir de férias: foi exactamente isto que aconteceu no século passado em praticamente toda a Europa com os dez anos de ascenção do nazismo ao Poder ( na guerra estavam todos bem vigis ...) e na Rússia durante todo o consulado estalinista - situações intermédias desse tempo histórico como o salazarismo português e várias outras ditaduras um pouco por toda a Europa, não vivendo sem total informação, devem ser excluídas deste grupo.
Não creio que nos próximos tempos possa haver uma situação análoga , mas penso realmente que uma informação massiva, exagerada, incorrecta ao lado doutra correcta mas indistinguíveis na sua credibilidade, podem provocar uma saturação do Eu e do Mim acabando-se o diálogo que como disse acima alimenta a nossa vida interior e nos faz querer fazer coisas: será o fim da retórica do Ethos, do Pathos e do Logos.
Quando muita se questiona porquê um povo tão civilizado como o alemão se deixou embalar nos fumos do holocausto ou outro povo donde provieram génios da cultura universal, como o russo, se deixou adormecer nos confins da selva dos goulagues siberianos, a resposta está aqui: conhecimento parcimonioso da realidade, fraqueza da retórica aristotélica como consequência, e um enorme e plúmbeo tédio de morte !
5- Comecei por dizer que o tédio - defendi eu isto em Évora - seria a mais epidémica doença mental do séc . XXI.
Na realidade tudo poderia ser doutro modo se a retórica acordasse a vigilidade e a razão. Um bom exemplo é o que faz a cafeína , o álcool e o tabaco. A cafeína é absorvida no estômago e intestinos muito rapidamente, atravessa a barreira hemato-encefálica e é por isso que este alcalóide é um estimulante quase perfeito uma vez que ao fim duma hora atinge o seu valor máximo de criação de vigilidade. Chegado ao cérebro o café bloqueia um aminoácido - a adenosina, que é grandemente responsável pelo nosso sono - e desaparece do cérebro ao fim doutra hora.
Ora com estes poderes mágicos o café mudou para melhor toda a nossa vida. Onde em plena primeira revolução industrial os operários ingleses saiam das fábricas para se emborracharem com cerveja para na madrugada seguinte se apresentarem ao trabalho em deficientes condições, passou-se pelo uso do café matinal a tolerar muito melhor os horríveis horários de trabalho. Os cafés tornaram-se moda na Londres de 1700, onde para além de operários se começavam a juntar em tertúlias agitadas pensadores de todo o tipo , até que Carlos II mandou encerrar centenas. Encerraram em Londres, abriram em Paris, onde no fim do séc XVIII se contavam por centenas e onde nos cafés Royale ou no La Défence homens como Robespierre, Rousseau, Napoleão, duque de Richelieu, ou Victor Hugo e Gautier punham em causa este mundo e o outro: e a revolução francesa e burguesa acontecia a seguir...como é sabido.
Note-se que nestes cafés toda a gente fumava e que a nicotina também tem o seu efeito fisiológico preciso: modera o temperamento e expande a atenção além de - e isto é o mais importante - duplicar a taxa de metabolização da cafeína. Ou seja, permite-nos beber duas vezes mais café do que o que beberíamos sem fumar. Ou seja, o tabaco permitia-lhes tomar café o dia todo , e este permitia-lhes falar e pensar todo o dia. E desta conjugação espantosa resultou em grande medida o Iluminismo. Mais tarde, apareceu o absinto que ajudava a que as ideias subissem upa, upa! E veio a revolução bolchevique de 1917.... Só para melhor ilustração: em Viena de Áustria ainda hoje ainda existe um café que é de visita turística obrigatória , o Café Central, e neste café um refugiado russo de seu nome Trotsky sempre seguido pela polícia política do Império, sentava-se diariamente a escrever proclamações e manifestos para a Rússia. Um dia em 1917 um alto-funcionário dos Estrangeiros do governo entrou esbaforido no gabinete do ministro e atira-lhe:"_ Excelência ....Excelência ....A revolução rebentou na Rússia!". O ministro enfadado, afastou-com um gesto de mão:" -Vá-se embora ...A Rússia não é um sítio em que rebentem revoluções. Aliás, pelo amor de Deus, quem é que seria capaz de fazer uma revolução na Rússia? O Herr Trotsky do Café Central ?"....
6- Pelo exemplo do nazismo e do estalinismo se pode ver que é em situações sociais muito pouco criativas ( compare-se com a febril agitação que os cafés permitiram ) mas sim em situações ronceiras ou rotineiras que o tédio pode surgir.
Vivemos, salvo melhor opinião, nas permícias duma dessas fases em que o torpor se instala. Ainda assim há um sinal prodrómico , um sinal de emergência , de que o tédio pessoal e o social ( já doença epidémica ) pode estar próximo : esse é o dos comportamentos pessoais tão rotineiros, tão rotineiros que passaram à categoria nosográfica de comportamentos obsessivos. Aliás nestes casos as pessoas tendem a melhorar quando são medicados com fármacos com dopamina ( anti-depressivos e mediadores do prazer - antítese do tédio ) e serotonina ( outro neuro-mediador sobretudo anti-obsessivo ).
Ou seja, parece-me cada vez mais que se aceitarmos viver vidas focadas num único objectivo, se não dispersarmos, treinarmos a disperção da nossa atenção mudando sempre que pudermos o que fazemos e como fazemos, o perigo espreita à porta.
Mas isto não é fàcil. Nos dois exemplos históricos de tédio nazista e estalinista podemos dizer que os seus mentores começaram por apagar os valores tradicionais quer alemães quer russos. Um só objectivo emergia das políticas estatais : a estimulação do capitalismo. É verdade , porque num caso o materialismo organizava-se à volta do nascente capitalismo financeiro, e no outro também chamado capitalismo de Estado, o que se procurava era o mesmo embora com diferentes destinos.
Se era preciso apagar todo e qualquer valor espiritual, estético ou ético em detrimento de tudo o que ajudasse ao aumento da produção, então não se hesitava. Por isso, quando agora os valores reinantes são o consumismo da matéria ou dos afectos, o aumento da produção e da produtividade a todo o custo, a aceleração do tempo histórico com a histérica necessidade de empreendedorismo ( esquecendo que a maioria das pessoas só pode e é capaz de ser feliz a trabalhar para outrem nem que seja por necessidade de protecção e serenidade ), a ostracização da espiritualidade nas suas diversas formas ( que é o contrário do materialismo espírita ), a ausência da busca dum sentido para a existência própria, e também o descrédito do altruìsmo e da compaixão, a busca sistemática da corrida no tempo cronológico em detrimento do sentir o pulsar do tempo vivido, o pseudo prazer da competitividade pela competitividade, e o corrupio da imitação no comportamento próprio da manada, sempre mimetizando os gostos materiais da manada chame-se ela o gosto pelo topo de gama ou a inveja do carro ou das férias ou dos tènis do animal vizinho do lado, correndo todos no mesmo mês para os mesmos sítios, oferecendo todos a mesma prenda nas mesma datas pela obrigação de não ser segregado e degredado pela manada, corrompendo porque "quem não corrompe como os outros é burro" - então estamos todos a criar as condições aparentemente assépticas para que o Tédio seja mesmo a doença do século XXI.
7- Aqui há tempos fui sendo abordado por colegas médicos de especialidades variadas que se queixavam de desinteresse pelas coisas, desesperança ....enfim depressão!
Em dois casos , todavia vinham com o diagnóstico na ponta da língua :-" Estou com um burn-out !". Afinal o que é o "burn-out" ?.
A partir de 1975 , ano em que a etologia se viu reconhecida como ciência quando o seu fundador Konrad Lorenz ganhou o Prémio Nobel da Medicina, muito do" brainstream " médico tratou de ler as suas obras , sobretudo duas das suas pérolas : A Agressão - uma história natural do mal ", e uma outra em que Lorenz já ensaiava filosofar sobre o que tinha aprendido com os animais não humanos e que sai em português com o sugestivo título , " Os oito pecados mortais da civilização". Nos anos setenta começou pois a surgir na América em artigos psiqiátricos a expressão "burn-out" como quem diz aquele que se queimou e já está estorricado pelo seu trabalho exagerado. Nada portanto que não estivesse descrito na expressão "depressão de esgotamento " ou não coubesse também na "depressão de ".por descarga " ( inicialmente descrita por Burger-Prinz ). Esta última esteve-me na pele durante semanas aquando do meu exame de saída da especialidade de psiquiatria . O sentimento era o de um esvaziamento existencial mais do que de tristeza, uma indiferença pelo ajuizamento alheio em relação à minha excelente performance no exame. Recordo-me que o que mais me tornava perplexo era eu não sentir grande coisa quando me davam os parabéns pelo excelente exame que tinha feito e tinha preparado dois meses antes em singular exclusividade - pondo em suspenso todos os outros interesses que me tinham impulsionado na vida. E eu não compreendia porque não me sentia feliz e , em vez disso sentia um vazio indizível , uma falta de ethos de mim, uma falta de pathos dos outros, uma suspeita falta de logos em mim , como se todo o esforço de dois meses não tivesse alterado coisa nenhuma na minha vida que valesse a pena. Mais tarde , a clínica ensinou-me que estado semelhante ocorria frequentemente com muitos aposentados do trabalho como se as preocupações passadas no período de trabalho tivessem , por terem acabado , posto à vista do próprio aposentado o vazio que era a sua vida e andava disfarçada até então, ou em casos de perda como em divórcios em que sem as preocupações familiares que tinham desviadas as atenções dos verdadeiros aspectos importantes ontológicos da vida, a realidade seca da vida ficava iluminada. É claro que nuns casos, estes estados catalogados como depressivos eram relativamente de curta duração, mas noutros eram como que assassínios ( portanto definitivos) da existência ao Devir e ao futuro. Isto dependia em muito do tipo de personalidade porque quando a pessoa exibia muitos traços de meticulosidade, perfeccionismo, necessidade de se ser admirado pelos outros, de ordenalidade, forte carga de auto-exigência, hiper -exigência da consciência moral, individualismo, egocentrismo, escrupulosidade, seriedade desmedida, como desmedida auto-exigência no trabalho, preocupações enormes com o futuro financeiro garantido , acompanhados pelo desinteresse por tudo que parece pequeno , prazenteiro ou algo fútil ( Tellenbach , 1976 )- então este quadro clínico podia ser crónico.
8- Mas tudo isto podia ocorrer em situações de perda, situações de mudanças bruscas na situação de vida, o que pressupõe uma responsabilidade e esforço para que o sujeito se adapte à nova situação.
O que é particularmente pesado ( e grave ) hoje porque a aceleração do tempo histórico - como já referi atrás - obriga cada vez mais gente a novas exigências. Todas as mudanças bruscas nos hábitos de vida como as que ocorrem em mudanças de locais ou postos de trabalho, , mudanças no modelo de família, emigração, mudanças de profissão ou aposentações sobretudo se precoces - independentemente do tipo de traços de personalidade que podem ser diferentes dos escritos no ponto 7. - provocam em maior ou menor grau esta espécie singular de frustração indiferente e apática, aethosica e agnosica a que chamamos TÉDIO - que sendo prolongado vai passar a patológico, ou seja doença mental, desde que nada disto ocorra por decisão própria, livre, meditada e prazenteira.
9-E assim foi que considerei o burn-out , auto-diagnosticado pelos meus amigos médicos e outros que o não diagnosticaram, como a essência do processo de TÉDIO em marcha. Tédio que defino como esse estado afectivo de pessoal demissão grande do desejo de ter vontades - por mais pequenas que elas sejam.
10- Ora se há característica própria da espécie humana é a de ter desejos de ter vontade para mudar a tradição. Na verdade não há tradição (( uma das mais importantes condições para que a espécie humana sobreviva ) sem uma contínua inovação . Só que essa inovação tem que ter conta , peso e medida , não pode ser de supetão.
O homem integral que preserva uma axiologia espiritualisma em contradição flagrante com com o esquema valorativo da sociedade de consumo, não passa hoje de um enquistamento da sociedade moderna. Este testemunho supramaterial vai sendo cada vez mais difícil de manter, uma vez que a tentação dos reinos da quantidade e da facilidade, aliada à vertigem sexual cuidadosamente construída, se têm revelado muito mais fortes que o exercício da ascese, da moderação, da temperança, da disciplina interior e da vida com parcimónia. Até a nível científico.
No que toca à relação biológico-social/cultural estamos perante uma ruptura.O antagonismo entre os imperativos culturalmente ditados por uma civilização de massas e as necessidades profundas de carácter biológico do animal humano não param de se avolumar ( o sedentarismo provoca por exemplo a obstipação fisiológica e etc.; a alimentação fast-food , ou a limitação de refeições a horas necessárias leva a discordâncias hormonais graves , o" chico-espertismo" como suposta condição de sobrevivência produz toda a casta de situações de stress crónico e suas consequências, a intoxicação do ar que respiramos faz bem pior aos pulmões que o rapé ou cachimbo, o peixe com chumbo e a carne com hormonas envenenam, etc, etc,etc. ).
Na verdade a ciência etológica demonstra que o homem é condicionado a nível filogenético pelas mesmas forças instintivas que motivam os primatas e outros mamíferos. Somos, de facto , caçadores de savana, de espaços abertos, ou seja seres que gostam de viver e sempre viveram em grupos de reduzidas dimensões. Quando vamos ver filmes ao YOUTUBE percebemos que não é este o caminho para a sobrevivência da espécie. E o TÉDIO , se calhar é o primeiro sinal do fim da nossa idade.
josé carlos couto soares pacheco, vila do conde, 3 e 4 de Abril de 2015
( ler em no blogue ciclóstomo de couto soares pacheco ou em facebook de jose carlos pacheco).

1 comentário:

  1. Srº Doutor , Boa tarde

    Peço desculpa por estar a contacta-lo desta forma , mas já não tenho o seu contacto, o meu nome é Pedro Araújo(913306484) (paraujo@entreposto.pt), fui acompanhado por si durante uns anos e estou neste momento muito necessitado de voltar a falar consigo, acha que é possivel contactar-me, estou um bocado perdido e desesperado, espero falar consigo em breve, um abraço e cumprimentos,
    Pedro Araújo

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