sexta-feira, 31 de agosto de 2012

pois é! -1

"Ir além da troika"

• Mariana Vieira da Silva, Recessão e retrocesso:
    ‘A poucos dias de conhecermos os planos do Governo para o Orçamento do Estado (OE) de 2013 importa avaliar o Orçamento de 2012 e a acção do Governo nos últimos 16 meses. Só a avaliação do OE 2012 e da sua concretização torna possível a avaliação da proposta de OE para o próximo ano. O Governo falhou na sua estratégia de ir além da ‘troika' e de acelerar o processo de ajustamento. O desemprego é bem mais alto do que o Governo esperava, a economia abrandou mais do que o Governo previa, a receita esteve abaixo do previsto apesar do aumento generalizado de impostos e o défice anunciado pelo Governo não vai ser cumprido. Resumindo: mais sacrifícios trouxeram piores resultados orçamentais. (...) Bramindo o discurso da inevitabilidade e apoiado num moralismo retrógrado e na ideologia cega contra o Estado, o Governo vai desmontando, uma por uma, as políticas do Governo anterior: apouca o plano tecnológico e a modernização económica, demoniza a política energética que fez a dependência energética descer de 87,2 para 76,8% em cinco anos, desiste de uma política de educação que fez o abandono escolar descer de 38,8 para 23,2%. E o que propõe este Governo em alternativa? Um mercado sem regras, uma competitividade assente nos salários baixos, retrocessos económicos e sociais acentuados e a recessão. Tudo isto... e um défice acima do previsto.’

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

POIS É !



Soube-se hojeque o projecto da escola, de autoria de Nuno Lacerda Lopes, professor da Universidade do Porto, foi o vencedor do World Architecture Awards 2012, tendo sido considerado por um júri de renome internacional “um exemplo de criatividade, originalidade e de inspiração para a nova arquitetura contemporânea.

Investir na escola pública, em lugar de aumentar os subsídios aos colégios privados, parece ser um crime hediondo. Eis o autor do crime — apanhado em flagrante (no dia 8 de Setembro de 2010):


A VERDADE VEM SEMPRE AO CIMO....

A palavra aos leitores

Comentário de Fernando Romano a este post;
    ‘O crime que cometeram foi de dimensão gigantesca. Eles sabem-no melhor que ninguém. Não se trata de um crime vulgar, foi um crime contra um povo, uma pátria, uma nação. Tudo farão para o encobrir, para o apagar. As próximas eleições autárquicas e presidenciais, quer muitos queiram ou não, vão avivar a história desse crime. Tudo fazem para enfermar os meios de comunicação em relação a Sócrates e à história recente. Eles julgam que o vão conseguir e para conseguir uma coisa dessas é preciso dar o comando a um sacana sem escrúpulos, a Miguel Relvas, para fazer todo o trabalho sujo. E ele está a fazê-lo. José Sócrates surpreendeu tudo e todos, a mim mesmo me surpreendeu ao observar a sua atitude na ação, a sua ambição de provar que Portugal conseguiria o que lhe foi sempre negado por elites cheias de teias de aranha na cornadura e pulgas e percevejos nas suas roupagens. José Sócrates personificou na política portuguesa um Iluminista avançado dos nossos tempos, pela sua coragem em provar que o povo, finalmente, tinha o papel relevantíssimo na projeção do nosso País. Lembremo-nos que derrotou quase meia dúzia de líderes do PSD: Santana, Marques Mendes, LFMenezes, MFLeite; lembremo-nos que a 15 dias do 5 de Junho 2011 ainda liderava nas sondagens. Parte do povo alterou o seu sentido de voto, na minha opinião, pela eficaz mensagem dos partidos da actual coligação de que não estabeleceriam nenhum entendimento governativo com ele, e o povo queria, naturalmente, um governo. PCP e BE deram vida a este golpe lesa-pátria. José Sócrates, sem ser um revolucionário, nunca escondeu que o que estava a tentar fazer ia contra a reacionária e ultramontana ortodoxia lusitana tradicional, nos debates parlamentares tratava-os como tal, desmascarava-lhes as intenções, gritava-lhes bem alto que só pensavam no "pote", enfrentou-os corajosamente ponto por ponto, ganhou respeitabilidade internacional, especialmente na União Europeia, onde era admirado e apoiado. Nenhum político nos últimos 38 anos obteve tanto sucesso nas movimentações políticas internacionais. Os partidos reacionários à sua esquerda e direita só tiveram que se unir contra ele, como lobos famintos. Objetivamente, no concreto, as políticas de José Sócrates eram populares, progressistas, nalguns casos, por se tratar do nosso País, eram revolucionárias: afinal o povo existia, os seus filhos eram os melhores nas universidades, os trabalhadores portugueses não era bons só no estrangeiro, jovens empresários saídos das universidades criavam centenas de novas empresas que produziam bens transacionáveis de elevado valor acrescentado. O crescimento das exportações disparava. Os diplomados eram aos milhares. O Conhecimento como que se universalizava a um ritmo surpreendente. O PCP não suportou conviver com um Primeiro Ministro de esquerda com esta ambição e convicção. Acabava-se a agitação e propaganda idealista e radicalista. As suas células e comités na administração pública em geral corriam o risco de passarem a memórias de um PREC pós Abril todo ele com uma dinâmica de golpe contra a democracia. O mesmo que faz agora. Era preciso enxovalhar o homem, esmagar-lhe o caráter. Foi no que melhor se entenderam a direita e este PCP reacionário e social-fascista. O BE é uma matilha para atiçar quando precisam, tanto o PCP como esta direita.’

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

COMEÇA O COLAPSO NESTE SEGUNDO SEMESTRE

Em suma, valores mais altos do que o “Buba” se levantam. O medo a uma recaída na recessão na Europa e nos EUA com o agravamento de conflitos sociais e políticos graves nas “periferias” da zona euro (como a eventual caída dos governos em Atenas e Roma como prato forte) e um disparo da instabilidade política em Washington, mais grave do que o que ocorreu em agosto do ano passado, com a agravante de haver eleições presidenciais em novembro.
O cenário tem sido referido pelo Fundo Monetário Internacional, pelo BCE e pela Reserva Federal norte-americana. É a “incerteza” mais arriscada que têm em cima da mesa. O que os move é o temor de que o segundo semestre se transforme num calvário com a convergência de um agravamento da crise das dívidas soberanas na zona euro (com Espanha e Itália em foco e um falhanço da renegociação na Grécia) com um súbito descalabro orçamental nos Estados Unidos em período de eleições presidenciais (“penhasco orçamental” e regresso da guerra em torno do teto da dívida federal).
Neste contexto, a reunião do conselho de governadores do BCE na quinta-feira surge como crucial, mais do que a própria reunião da Reserva Federal (Fed) dia 1 de agosto. Os analistas norte-americanos consideram que a reunião da Fed será apenas uma preparação do encontro de reflexão de Jackson Hole a 31 de agosto e que as decisões críticas sejam só tomadas na reunião da Fed de 13 de setembro, em que haverá uma conferência de imprensa.
O medo de que algo descarrile no segundo semestre levou hoje a agência chinesa Xinhua a citar o presidente Hu Jintao de que serão incrementadas medidas de política orçamental e monetária.
Setembro é um mês de confluência de muitas decisões para a zona euro. O Tribunal Constitucional federal alemão divulgará o acórdão sobre o Mecanismo de Estabilidade Europeia que deveria ter entrado em vigor em 9 de julho. Ocorrerão dia 12 eleições legislativas na Holanda, que poderão modificar os equilíbrios políticos na zona euro. A troika publicará o seu relatório sobre a situação na Grécia falando-se já da preparação de uma segunda reestruturação de dívida, desta vez negociada com os credores públicos, que poderá implicar um hair cut (“corte de cabelo”) no valor da dívida detida pelo “sector oficial” entre 30% a 50%, segundo cálculos da Reuters e da ING respetivamente. Entretanto na Catalunha, cuja Generalitat é governada por Artur Mas do CiU, poderá ser desencadeada uma consulta popular (tecnicamente não poderá ser um referendo) sobre o pacto fiscal com Madrid, criando um efeito dominó a partir de uma das maiores Comunidades Autónomas contra os planos de Mariano Rajoy e de Bruxelas.
Fuga de capitais começa a ser alarmante
A Nomura referiu que, a continuar a fuga de capitais dos mercados “periféricos”, poderá correr-se o risco de uma imposição de um “corralito” ao estilo argentino (impedindo a saída de capitais) e de uma súbita reintrodução de moedas próprias em vários “periféricos” da zona euro (com o novo dracma a desvalorizar-se 57,6%, o novo escudo 47,2%, a nova peseta 35,5% e a nova lira 27,3%). Segundo o jornal grego “Kathimerini” na sua edição de hoje, o ministro das Finanças do governo de Atenas teria dito aos partidos que apoiam a coligação que “ou tomamos medidas ou regressamos ao dracma no prazo de dois meses”.
Segundo o relatório do Banco de Pagamentos Internacionais (BIS) divulgado recentemente, e referido na edição do Expresso de sábado passado, os bancos dos 24 países que reportam para o BIS reduziram a sua exposição à dívida pública europeia em 13,2%. No caso da Grécia, a saída atingiu 58,9% no 1º trimestre em variação homóloga, 35,8% para a Estónia, 34,4% para Portugal, 32,9% para Chipre, 30% para Espanha, 28,8% para Itália e 26,3% para Irlanda. Sintoma desta fuga dos”periféricos” é a corrida dos bancos internacionais aos títulos soberanos considerados refúgio seguro, que tem levado as yields desses títulos no mercado secundário a valores negativos ou próximos de zero nos prazos mais curtos, como têm sido os casos da Suíça, Alemanha, EUA e França.

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

capitalismo financeiro - o demónio da era moderna

Segredo bancário

O homem que valia milhões

24 agosto 2012
El País Madrid
Hervé Falciani em 2009, em Nice.
Hervé Falciani em 2009, em Nice.
Aos 40 anos, Hervé Falciani é o homem que entregou a vários governos europeus os ficheiros com os nomes de milhares dos seus cidadãos que tinham contas na filial suíça do banco HSBC. Preso em Barcelona, no final de julho, está à espera de ser extraditado para a Suíça.
Não foi preciso fazer grandes esforços para o encontrar. Estava ali. No ecrã do computador em frente ao qual tinha passado os últimos seis anos da sua vida, na sede do HSBC de Genebra, procurando melhorar os programas das bases de dados de clientes de um dos maiores bancos do mundo. Nesse dia de outubro de 2006, o que os olhos de Hervé Falciani contemplavam era ouro puro. Dados protegidos pelo sacrossanto segredo bancário suíço. Contas milionárias engordadas durante anos por transferências invisíveis e fluxos financeiros de origem duvidosa impossíveis de seguir. O que este engenheiro informático tinha à sua frente eram milhares de depósitos de cidadãos e empresas estrangeiras ali colocados, longe do alcance dos seus respetivos governos para não pagarem impostos. Um dos maiores casos de fraude jamais descobertos.
A cena seguinte tem lugar seis anos depois, no porto de Barcelona. Estamos no primeiro dia de julho de 2012. Falciani chega de barco a Espanha. Os alarmes disparam quando é feita a verificação dos documentos deste monegasco com nacionalidade francesa e italiana, casado e com um filho. Contra ele existe uma ordem de prisão internacional procedente da Suíça apesar de, no passado, a sua informação ter servido para descobrir, em toda a Europa, milhares de casos de evasão fiscal e trazer à luz do dia cerca de 10 mil milhões de euros que estavam por tributar. Berna considera-o um vilão. É preso e o Tribunal Federal de Bellinzona está agora à espera dele para o julgar por roubo de dados pessoais, violação do segredo comercial e violação do segredo bancário. Se a Audiência Nacional [tribunal superior espanhol] decidir extraditá-lo, claro.
Entre a sua genial descoberta e a sua prisão em Barcelona, passaram-se seis anos intensos em que o informático se transformou num fugitivo muito valioso por causa da informação que tem em seu poder. Para aqueles que querem essa informação destruída, é um delinquente que é preciso julgar e prender. Para os que a querem aproveitar, é uma espécie de herói, um Robim dos Bosques digno de proteção. Foi isso o que aconteceu entre esses dois momentos.

Pilar da identidade suíça

Depois de ter encontrado aquela valiosa informação, em outubro de 2006, Falciani, nascido no Mónaco, passa dias e dias da sua jornada laboral a descarregar esses dados para o seu portátil Mac. Fá-lo durante dois anos. Sistematicamente. Não é estranho. Até dia 20 de março de 2008. Nesse dia, a Associação Suíça de Banqueiros (Swissbanking), a associação patronal do setor, lança um alerta. A 4 de fevereiro, um tal Ruben Al-Chidiak tinha-se apresentado nos escritórios do banco libanês Audi, em Beirute, para negociar a venda de uma base de dados de clientes de diferentes bancos suíços. Segundo a associação patronal, essa informação tinha sido obtida através de pirataria. O segredo bancário suíço, uma das marcas da identidade do país, está em perigo.
A polícia descobre que, por trás da identidade de Ruben Al-Chidiak se esconde Falciani. A 20 de dezembro de 2008, o franco-italiano e a sua companheira de viagem são presos e interrogados. O informático é libertado logo a seguir e, um dia depois, instala-se em Castellar, a última aldeia francesa da Côte d’Azur, colada à fronteira italiana. A meio dos dois países dos quais tem passaporte. Muito longe das garras de Berna porque nem França nem Itália extraditam os seus cidadãos nacionais. Mas Berna insiste. Quer recuperar, custe o que custar, o material que Falciani copiou, e que tanto o Ministério Público como o HSBC consideram roubado, e emite uma ordem internacional de prisão contra ele. Mas nesta perseguição desesperada, a Suíça comete um erro de vulto: pede a França que lhe registe o domicilio, que lhe confisque o portátil e que envie os arquivos.
A 20 de janeiro de 2009, o vice-procurador da República de Nice aparece, com um mandato de apreensão da polícia, na casa em que Falciani e a sua família estavam instalados. A diligência de rotina converte-se num achado excecional. Tratam-se, nada mais nada menos, de 130 mil contas de outras tantas pessoas que fogem ao fisco. O seu superior hierárquico abre a sua própria investigação. Não contra Falciani, mas sim contra os presumíveis infratores. A informação do ex-funcionário do HSBC em Genebra começa a circular. O assunto desencadeia uma crise diplomática entre a França e a Suíça. Berna acusa Paris de ter ficado, ilicitamente, com dados roubados. O governo de Sarkozy, por seu lado, responde ameaçando incluir a Suíça na sua lista negra de paraísos fiscais da OCDE.

6 mil milhões de euros por regularizar

O caso salta para a comunicação social em agosto de 2009. O ministro das Finanças do governo de Sarkozy, Éric Woerth, anuncia ter em sua posse uma lista de três mil contas suíças sem, no entanto, esclarecer a sua origem. Woerth convida os seus titulares a apresentarem-se voluntariamente às finanças para regularizarem a sua situação fiscal. Desde então, quatro mil e 200 pessoas apresentaram-se à inspeção fiscal. Até ao momento, a França já recuperou mil e 200 milhões de euros de impostos que estavam por pagar.
Os poucos nomes que saltam para a Imprensa francesa geram uma sucessão de escândalos. O maior de todos, o de Patrice de Maistre, o assessor financeiro de Liliane Bettencourt, a proprietária do império L’Oréal, mas também constam do rol a herdeira da marca de perfumes Nina Ricci e Jean-Charles Marchiani, braço direito do ex-ministro do Interior Charles Pasqua. A Suíça continua a pressionar a França para que lhe entregue o computador de Falciani. Paris só cede em fevereiro de 2010. Antes, a Procuradoria envia cópias a todos os países com quem tem acordos de cooperação em matéria fiscal e que haviam pedido esses dados.
A 24 de maio de 2010, a informação enviada por França já está em cima de uma mesa da sede da Agência Tributária (AEAT) de Madrid. As Finanças citam os presumíveis infratores que identifica e convida-os a pagarem o que devem, acrescido de uma multa. Graças aos dados de Falciani conseguiu-se, até ao momento, em Espanha, “a maior regularização da história do fisco”. O dinheiro que aparece, segundo fontes não oficiais, ultrapassa os seis mil milhões de euros. Na lista aparecem nomes poderosos, como Emilio Botín, presidente do Santander. Do relatório enviado para Itália também constam os nomes de pessoas famosas que fogem aos impostos. Entre os seis mil 963 nomes da lista estão os costureiros Valentino e Renato Balestra. Ao todo, a soma que escapou às Finanças italianas graças às contas no HSBC ascende a 570 milhões de euros.

Esquemas fraudulentos

Ainda hoje continua a ser um mistério a razão pela qual Falciani descarregou para o seu computador pessoal todos esses ficheiros. Não se sabe se pretendia colaborar com a justiça e denunciar a maquinação que a empresa onde trabalhava punha ao serviço da fraude, como ele próprio mantém desde o início, ou se, simplesmente, queria vender essa informação por uma quantidade obscena de dinheiro, como defende a justiça suíça. Falciani pode fornecer ainda mais informações? Continua a ser útil para investigar novos crimes?
Só 15 dias depois da sua prisão é que a subcomissão de Segurança Interna do Senado dos Estados Unidos tornou pública a sua investigação sobre a falta de controlo do HSBC para detetar casos de branqueamento de dinheiro. À sua lista de inimigos – a justiça suíça, um dos bancos mais poderosos do mundo e milhares de pessoas que fugiam ao pagamento de imposto e que por causa dele foram descobertas – podem somar-se ainda criminosos perigosos [a Al-Qaeda e cartéis de droga mexicanos]. Ele tem consciência de que vale aquilo que sabe. E que não lhe resta outra saísse senão continuar a sua fuga para a frente.

O cano de uma pistola pelo cu

• Juan José Millás, O cano de uma pistola pelo cu [publico no El País em 14 de Agosto de 2012]:
    ‘Se percebemos bem - e não é fácil, porque somos um bocado tontos -, a economia financeira é a economia real do senhor feudal sobre o servo, do amo sobre o escravo, da metrópole sobre a colónia, do capitalista manchesteriano sobre o trabalhador explorado. A economia financeira é o inimigo da classe da economia real, com a qual brinca como um porco ocidental com corpo de criança num bordel asiático. Esse porco filho da puta pode, por exemplo, fazer com que a tua produção de trigo se valorize ou desvalorize dois anos antes de sequer ser semeada. Na verdade, pode comprar-te, sem que tu saibas da operação, uma colheita inexistente e vendê-la a um terceiro, que a venderá a um quarto e este a um quinto, e pode conseguir, de acordo com os seus interesses, que durante esse processo delirante o preço desse trigo quimérico dispare ou se afunde sem que tu ganhes mais caso suba, apesar de te deixar na merda se descer. Se o preço baixar demasiado, talvez não te compense semear, mas ficarás endividado sem ter o que comer ou beber para o resto da tua vida e podes até ser preso ou condenado à forca por isso, dependendo da região geográfica em que estejas - e não há nenhuma segura. É disso que trata a economia financeira.’

sexta-feira, 27 de julho de 2012

GEOPOLÍTICA DA GUERRA QUE AÍ VEM -1

As guerras do Levante (I) surripiado  do cachimbo de magritte


A Síria é agora a porta que uns querem abrir (ou arrombar) e outros querem manter bem fechada. Muitos perguntam porque se prolonga e agudiza aquela guerra dado que aparentemente não há móbil económico conhecido, porque investem tanto a Rússia como a Turquia naquele país, em lados opostos, porque há homens da CIA e da Mossad também no terreno em apoio aos rebeldes, sem no entanto conseguirem ouvir uma explicação que os satisfaça e que una os pontos. Aviso que não tenho essa pretensão, apenas desejo escrever sobre uma vertente desta complexa guerra.
Muito do que vemos e ouvimos no espaço informativo não ajuda, explica mal o que se está a passar no terreno e muito pouco do que efectivamente acontece nos bastidores da política internacional. A informação que nos chega sobre a guerra civil na Síria merece e deve ser devidamente filtrada; nomeadamente a do mainstream noticioso (da CNN à Al-Jazeera) e das despreocupadas agências noticiosas nacionais.
Uma razão para nós europeus exigirmos ter melhor informação é porque esta guerra ainda nos diz respeito – esta é, também, uma guerra pelo acesso aos mercados europeus e em particular ao mais apetecível de todos: o mercado da energia.
Vejamos então esta vertente da guerra (não sei se a mais importante), o caso concreto do mercado da energia: a Europa é ainda um muito desejado mercado para os países exportadores de recursos energéticos e não está a conseguir libertar-se do espartilho movido há já algum tempo pela Rússia. Face às quantidades em jogo para satisfação das necessidades futuras de energia na Europa, agora que países como a Alemanha, a Bélgica e a Itália desistiram da opção nuclear, poucas são as soluções alternativas aos russos. Na verdade, para as quantidades em jogo, havia apenas duas alternativas aos russos: o Norte de África e o Irão, todas as outras apenas mitigavam o problema. O gás que possa vir de outros países de leste como o Azerbeijão ou do Turquemenistão não ameaça seriamente as ambições de Putin. A Rússia conduz uma estratégia sem diversificação que também a torna, cada vez mais, dependente da cativação da Europa – de quem quer ser o principal fornecedor arriscando a que esta seja o seu principal consumidor. A dependência económica russa dos recursos naturais (energias fósseis), e a falta de mercados de dimensão alternativos à Europa, faz com que o fracasso desta estratégia não seja sequer admissível por Moscovo – poderiam conduzir a convulsões sociais inimagináveis.
A estratégia da Rússia passa por “secar” as alternativas concorrentes através de alianças estratégicas. Depois das alianças com as companhias energéticas alemãs e até mesmo com os governos regionais na Alemanha já conseguiu alianças estratégicas com importantes países europeus, países que podiam oferecer entradas a sul: a Itália e a França. À Itália (à ENI), com o elevado patrocínio de Putin, amigo e aliado indefectível de Berlusconi, foi oferecida participação em importantes investimentos em projectos na Rússia e nos gasodutos que transportarão o gás de leste até à Europa. Com a França foi usada a mesma estratégia e a GDF tem já um importante conjunto de alianças na Europa com a Gazprom. A neutralização destes dois países era importante, ambos podiam oferecer uma alternativa ao gás da Rússia, o gás proveniente do Norte de África, nomeadamente da Argélia, e da Líbia. Sabendo o estado a que foi conduzida a região não é necessário fazer aqui mais desenvolvimentos sobre esta hipótese e a confiança que esta oferece aos investidores.
Sobra ainda a outra alternativa, capaz de satisfazer o apetite energético europeu e competir com os russos: o Irão.
O Irão, por razões sobejamente conhecidas, era até há pouco uma carta fora do baralho para o fornecimento de energia à Europa, até que a Turquia (secundando a China) a resolveu usar. Desde que o poder mudou na Turquia, a sua relação com o Irão tem sido muito ambígua, parecendo acatar as resoluções internacionais mas simultaneamente defendendo-o da aplicação das sanções económicas e até aumentando as trocas comerciais com aquele país. Uma das razões é a sua dependência energética. A Turquia vem mantendo com a Rússia um importante braço de ferro energético (mas também alianças pontuais) e não deseja aumentar o seu grau de dependência - as ambições de potência regional assim o exigem. A Turquia anunciou recentemente um importante investimento – o início da construção de um gasoduto de 5000 km com capacidade para 35 Bcm/ano para simultaneamente importar gás directamente do Irão para o seu mercado interno e exportar para a Europa (o curioso, e para quem não saiba, é que o gás iraniano, ao contrário do petróleo não está sujeito a sanções). A Rússia nunca acreditou seriamente na concorrência iraniana pelo mercado energético europeu, e sempre desconfiou da possibilidade da concretização de uma aliança de iranianos e turcos – a história corroborava esta opinião suportada na falta de confiança mútua. Pode não passar de um bluff de Erdogan, para objectar à decisão russa pelo South Stream, vamos aguardar para ver porque a história não acaba aqui.

Por agora, os russos estão demasiadamente concentrados a dificultar a vida a um concorrente de última hora, bem mais credível - o mais recente potencial petro-estado do Mediterrâneo Oriental. Estão a tentar obstruir a entrada do gás de Israel no mercado energético da Europa, pelo corredor do Levante: a Síria. É que Israel, como a Rússia, alimenta a ambição de abastecer a Europa, depois das extraordinárias descobertas de gás na bacia do Levante.

No próximo post vou tentar explicar as ambições israelitas e como se cruzam na guerra civil da Síria os interesses opostos de Israel e da Rússia numa violenta guerra que é também económica. Esta é uma das guerras que se trava no Levante.

(contínua)