domingo, 15 de agosto de 2010

DA SÉRIE TEXTOS QUE DÃO QUE PENSAR

O temosiunamon sonha.
Sonha , à noite, embrulhado com Morfeu, Deus dos sonhos, que é seu filho. E ei-lo a chutar as aristocráticas e mui femininas meninges , de modo que ele acha semelhante a estes chutos brasileiros, iguais aos do FCP  no final da Super-Taça!
O treinador do glorioso, mais belo que nunca na sua oitecentista cabeleira Luís XIV, mastigando restos de bolo-rei de Natal que cavaco lhe mandou, quando questionado por outra jovem (jornalista ) sobre as razões da derrota do glorioso na Luz, frente à Académica  com menos um jogador, pensou, mastigou o bolo, pensou, mastigou o bolo, pensou e disse:

-« Eles marcaram dois e nós só um ! ».

Porque é que eu meti estas seis palavras na série dos textos e não das frases?. Bem, é que há frases que reduzem , na sua singeleza profunda toda uma biblioteca da Universidade de Coimbra,  a um penacho de pó de casa. Daí a alergia que causam. Os pruridos que produzem . As invejas que fabricam. A autoridade que exibem!. Sobretudo quando provêem do temesiunamon.

DA SÉRIE : FRASES QUE IMPÕE RESPEITO !

"«.ESTE  HOMEM  VIVE EM  MASSAMÁ !!! »



(Mendes Bota, no Pontal, sobre Pedro Passos Coelho)

O AUMENTO DAS MATÉRIAS-PRIMAS VAI ACONTECER JÁ ESTE ANO

A semana que passou foi rica em dados geopolíticos que, como de costume passaram desapercebidos nos nossos jornais.

Um deles foi o relatório do WASDE ( World Agricultural Supply and Demanding Estimates ), do  Departamento  da Agricultura dos Estados Unidos ( correspondente ao nosso Ministério da Agricultura ). Do relatório, exaustivo e que está acessível na Net , e para não maçar demais os meus dois leitores e meio, tomei nota que na Bolsa Alimentar , só no passado mês de julho a cotaçao do trigo aumentou ( was improved ) 35%; que o consumo de cereais no mundo cresceu  45 milhões de toneladas métricas e que a produção prevista para o período ( semelhante ) de 2010/2011 aumentará apenas 13,7 milhões de toneladas; isto quer  dizer que vai haver um buraco de 32,48 milhõoes de toneladas resultante de um aumento de 2% no consumo previsto e uma produção que irá contrair 0,6%, acompanhados de uma redução dos stocks mundiais na mesma quantidade a qual não se verificou no ano passado.

Se nós fossemos alemães, esperaríamos pacientemente que os preços subissem e entretanto continuaríamos a comprar o nosso habitual; como somos latinos, vamos anteciparmo-nos e à medida que formos sabendo que os preços vão mesmo subir, usaremos duas de três metedologias de lidar com o problema: se formos pobres não fazemos nada a não ser ir exigir ao padre que nos arrange umas côdeas ; se formos remedeados ou até ricos , aí sim vamos a correr às shops mais próximas comprar mais arroz , massas e afins assim antecipando um bocadinho em Portugal a inflação.

Se formos aposentados ( retired ) estamos bastante tramados porque não podemos reflectir nos preços daquilo que fazemos a inflação do que compramos. Como estou neste grupo ( dos aposentados ) acho que o verdadeiro aperto ( depois dos desgraçados desempregados ) vem agora a caminho para a generalidade da população ( que é constituída maioritariamente por aposentados e pelos seus netos que em muitíssimos casos vivem mais debaixo das asas apoiantes dos avós que dos pais). Azar pois para avós e netos - sobretudo os mais mimados e que ainda não interiorizaram que o próxime filme num cinema perto de si tem por título : Regresso ao Passado - parte I. Voçê, sim voçê aí, é o protagonista; e o guião mostra-nos, na esteira de que Toynbee, Sengler, Malraux e outros avisaram, uma vida com a reinvenção da família normalzinha, os domingos passados em pic-niques à beira-mar, a cerzedeira e o sapateiro lá da rua no seu mister, uma relação inter-pessoal muito mais baseada na autoridade que no poder, um tempo morno que corre na nossa subjectividade sem gritarias ou sobressaltos, uma religião que não é nenhuma seita, um gosto particular pelo nosso país, um prazer em redescobrir que um bom transporte público até ajuda a ser-se menos ensimesmado e egoista, enfim... talvez, se quisermos, uma vida que não será idilica mas pode ser mais genuína e menos histérica ( genital) ou histriónica ( teatral ).

Como causas para a baixa da produção cerealífera está a mudança climática à cabeça, ou seja calor e incêndios na  rússia, ucrânea e cazaquistão que destruiram cercade 30% das respectivas produções, bem como chuvas anormais no canadá , argentina e china.
Como a rússia vai produzir menos 8 milhões, a união europeia menos 4 milhões, a ucrânia menos 3, bem como o cazaquistão, países grandes produtores que vão passar a importar, é certa a agroinflação. Agroinflação, visto que o algodão, o café, o cacau o açúcar e outras comodities como cobre . estanho e ouro, diminuem este ano agro-mineral pelos mesmos motivos ( climáticos ) ou esgotamento de minas de alta rentabilidade.

Ou seja, mesmo sem uma aparente retoma do crescimento económico ocidental, só a baixa da produção destes bens associados a uma voragem incontrolável dos países emerentes ( os BRIC ) cujas classes médias não param de crescer exigindo um tipo de alimentação que em tudo copia o ocidental,  mas com maior esbanjamento, bastam para provocar um aumento de preços. Se, por cima disto, houver retoma económica nos países desenvolvidos, ocidentais ou ocidentalizados (japão, coreia do sul, taiwan, singapura ) então o aumento será dramático.

Entretanto Jonh Baffes do Banco Mundial que dirigiu com os maiores especialistas mundiais um estudo para a ONU, concluiu que dois outros factores têm aumentado sustentadamente o risco inflacionário na última década: o desvio de cereais do seu fim alimentar para a produção de  biocombustíveis e, sobretudo, uma nova e desmedida apetência de especuladores institucionais (bancos e fundos ) ou soberanos ( fundos de aposentação, soberanos e afins !) por produtos alimentares ou agroalimentares ou minerais essenciais à vida ( o primeiro a ser especulado há trinta anos foi o petróleo ) -exactamente por , em época de incerteza haver a certeza que haverá sempre quem os compre independentemente do preço!!!. Mais uma vez os especuladores a semearem foices e martelos que lhes hão de cortar os tomates  e fazer galos ... na cabeça.

Já aqui referi há meio ano os milhares de milhões de hectares que países emergentes com excesso de divisas e parcos recursos agrícolas e água ( sim a água que o PSD do Passos Coelho quer privatizar e seria o maior negócio do século - a realizar-se ) ´têm comprado em países pobres e com regimes crapulosos ( Angola, Congo, Sudão do sul, até Brasil...). Et pour cause....

Et pour cause... DELENDA CHINA EST !

UMA GESTÃO MODERNA TEM DE SER EFICAZ !

3 casos de má Gestão   (APRENDAM FUTUROS GESTORES). . .


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Vejam se aprendem alguma coisinha!

Caso 1:

Ia uma jovem a passear com o seu namorado, quando ouviram uns
operários de umas obras gritar:
- Oh cabrão, não a leves a passear, leva-a mas é para um lugar escuro
e come a gaja!!!

O rapaz, muito envergonhado, segue o seu caminho com a namorada e
passam por um parque onde estão vários reformados sentados que ao
vê-los começam às bocas ao noivo:

- De mãozinha dada com a miúda, devias é levá-la para um motel, ó paneleiro!!!!

O rapaz, cada vez mais envergonhado, decidiu-se levar a namorada a
casa e despede-se:

- Então até amanhã, meu amor!
A noiva responde-lhe:
- Até amanhã, surdo de merda!!!

Conclusão:

Escuta e põe em prática os conselhos dos consultores externos pois são
gente com experiências; se não o fizeres, a tua imagem e a tua gestão
empresarial ver-se-ão seriamente deterioradas.

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Caso 2:


Um réu, condenado a prisão perpétua por assassínio em primeiro grau,
consegue fugir ao fim de 25 anos na prisão. Ao fugir, entra numa casa
onde dorme um jovem casal. O assassino ata o homem a uma cadeira e a
mulher à cama.
A seguir, encosta o seu rosto ao peito da mulher, levantando-se de
seguida e saindo a seguir do quarto.
Imediatamente, arrastando a cadeira, o marido aproxima-se da esposa e diz-lhe:

- Meu amor, este homem não vê uma mulher há anos. Eu vi-o beijando-te
o peito e aproveitando estes segundos em  que ele se afastou um pouco, quero pedir-te que
cooperes com ele e faças tudo o que ele te pedir. Se ele quiser fazer
sexo contigo não o evites e finge que gostas.
Por favor, não o afastes. As nossas vidas dependem disso!!! Sê forte,minha linda, eu amo-te.
Sê forte por nós dois. Ele há valores que justificam muita coisa, meu anjo. Deus vai compreender-te!

A jovem esposa, mussitando e muito corada diz ao marido:

- Querido, estou reconhecida que penses assim! Efectivamente este
homem não vê uma mulher há anos, no entanto não estava a beijar-me o
peito.
Estava a dizer-me ao ouvido que gostou muito de ti e perguntou-me se
guardamos a vaselina na casa de banho.
Sê forte, meu lindo; eu também te amo muito.

Conclusão:


Não estar verdadeiramente informado pode trazer sérios inconvenientes.
A informação actualizada e exacta é fundamental para sair com êxito do
ataque de competência desleal e assim evitar surpresas desagradáveis.

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Caso 3:



Um rapaz vai a uma farmácia e diz ao farmacêutico:

- Senhor doutor, dê-me um preservativo. A minha namorada convidou-me para ir
jantar esta noite lá a casa, já saímos há três meses, a pobre começa a
estar muito quente e parece-me que me vai pedir para lhe pôr o
'termómetro'.

O farmacêutico dá-lhe o preservativo e o jovem sai da farmácia. De
imediato, volta a entrar para dizer sussurando:

- Doutor, é melhor dar-me outro, porque a irmã da minha namorada, é
uma boazona de primeira, passa a vida a cruzar as pernas à minha
frente que ás vezes até lhe vejo as entranhas. Acho que também quer
algo, e como vou jantar hoje lá a casa...

O farmacêutico dá-lhe o preservativo e o jovem sai da farmácia. De
novo, volta a entrar, clamando, excitado:

- Desculpe doutor, é melhor dar-me outro, porque a mãe da minha namorada também
é boa como o milho. A velha, quando a filha não está ao pé, passa a
vida a insinuar-se dum modo que me deixa atrapalhado, e como eu hoje
vou jantar lá a casa...

Chega a hora da comida e o rapaz está sentado à mesa com a sua
namorada ao lado, a mãe e a irmã à frente.

Nesse instante entra o pai da namorada e senta-se também à mesa. O
rapaz, baixa imediatamente a cabeça, une as mãos e começa a rezar:

- Senhor, abençoa estes alimentos e esta família, bzzzz, bzzzz, bzzzz, blá,blá,blá... damos-te
Graças por estes alimentos e toda a felicidade e mais riqueza que nos trouxeste!

Passa um minuto e o rapaz continua de cabeça baixa rezando:

- Obrigado Senhor por estes dons, bzzz, bzzz, bzzz....,blá,blá,blá..... ,e por tudo de bom que nos permitiste!

Passam cinco minutos e prossegue:

- Abençoa Senhor este pão, bzzz, bzzz, bzzz...,blá,blá,blá, etc e tal, e pela grandeza do teu Mesericordioso perdão!

Passam mais de dez minutos e o rapaz continua de cabeça baixa rezando.

Todos se entreolham surpreendidos e a namorada diz-lhe ao ouvido:

- Meu amor, não sabia que eras tão crente!!!

- Nem eu  sabia que o teu pai era farmacêutico !!!

Conclusão:


Não comente os planos estratégicos da empresa com desconhecidos,
porque essa inconfidência pode destruir a sua própria organização.

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

UMA ENTREVISTA PARA RELER E PENSAR

Entrevistas sobre o futuro

( entrevista do Público ao economista Félix Ribeiro que é uma autentica aula de geo-política )


A Europa vai ser comprada pela China e pelos príncipes árabes

A Alemanha quer o euro porque quer redesenhar o mapa monetário mundial. A China quer o euro porque não quer ficar sozinha com os EUA. Portugal, para sobreviver, vai ter de tirar partido da globalização. No cenário, optimista, de a globalização sobreviver à crise.Por Teresa de Sousa





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PartilharImprimirComentarEnviarDiminuirAumentarJosé Manuel Félix Ribeiro, economista, em véspera de aposentação, foi subdirector-geral do Departamento de Prospectiva e Planeamento (DPP) e foi aí que produziu os mais conhecidos exercícios de cenarização sobre a economia portuguesa, sobre os futuros possíveis da Europa ou do mundo. Raramente dá entrevistas. O que pensa é o produto de uma mente brilhante somada a uma vasta informação sobre o que se passa no mundo: em Pequim ou na casa real saudita, nos sectores mais inovadores dos EUA ou na prodigiosa empresa de petróleos norueguesa. Evita opiniões taxativas sobre o país. Fornece hipóteses num contexto internacional de profunda incerteza. Polémico e pessimista.



Vivemos uma tripla crise: mundial, europeia e nacional. Podemos começar por aquela que mais nos condiciona, a crise europeia. Como é que a Europa pode sair daqui?



Estive recentemente na Universidade Católica do Porto para falar dessa questão e resolvi fazer uma coisa sobre a Europa, o euro e a China. A minha ideia, que pode estar completamente errada, é que temos de começar por compreender por que é que os alemães foram forçados a aderir ao euro e que o euro, na prática, não é uma resposta europeia à globalização. É, antes do mais, uma resposta à unificação alemã.



E uma resposta política, antes de ser económica.



Política. Não vejo que a Alemanha queira sair do euro nem que a sobrevivência do euro esteja em causa. Penso que a Alemanha tem uma ambição, que esta crise veio fortalecer, que é a de redesenhar o mapa monetário mundial. O que uma parte da elite alemã gostaria era que tivéssemos um sistema monetário com três pólos: o dólar, o euro e o yuan chinês. Há uma parte dessa elite que vive muito mal com o modelo anglo-saxónico de capitalismo e com o seu domínio da economia mundial. Nessa medida, seria um suicídio colocar em causa o próprio euro, porque é ele que lhe dá, apesar de tudo, uma outra dimensão para negociar este sistema tripolar que o marco dificilmente teria mesmo que fosse agora reinventado.



A Alemanha quer preservar o euro mas em que condições?



O que está em causa é a necessidade de consolidar o controlo sobre o euro para que possa ter um papel muito mais importante no futuro. E esse controlo tem de ser acompanhado por outra coisa: a Alemanha quer pagar o menos possível para salvar economias que vê como relativamente inviáveis.



As economias da Europa do Sul?



Sim. E o problema é que hoje a Europa do Sul, ao contrário do que aconteceu nas décadas anteriores, já não é um mercado fundamental para a Alemanha e os alemães vêem-na como um peso que não querem ser os únicos a ter de suportar.



Está a dizer que a Alemanha ficaria satisfeita se os países do Sul saíssem do euro? Isso não seria a sua condenação?



Não vou dizer isso, porque não sei. Essa é a discussão sobre o que quer realmente a Alemanha. Apenas acho que não quer sair do euro, a não ser que seja completamente forçada. Eles quiseram pregar um grande susto à Europa. Mas mesmo um grande susto. Querem impor alguma ordem. Não sei se querem mais alguma coisa.



A UE, tal como existe, ainda é aquela que serve os interesses mundiais da Alemanha?



O que me parece é que os alemães têm uma estratégia clara na qual a China e a Rússia são chave. A China, para venderem aquilo que produzem, e a Rússia para comprarem energia e também desenvolverem a industrialização. Entre a Rússia e a China, a Alemanha tem uma nova estratégia. Mas também admito que não possa separar-se completamente dos Estados Unidos. O ideal, para ela, era que os EUA se dessem bem com a Rússia. Isso favorece o jogo alemão porque pode pôr em prática [a sua estratégia] sem ter de fazer escolhas.



Onde é que entra a China?



A Alemanha sabe que pode contar com a China porque Pequim não quer ficar sozinha com o dólar para o resto da vida. A China é a única entidade no mundo convictamente empenhada - pelo menos enquanto esta direcção lá estiver - em que o euro não se afunde. Quer ter outro parceiro que não seja apenas o dólar e, portanto, no que puder ajudar, fá-lo-á. Comprar dívida emitida por entidades europeias...



Já está a fazê-lo.



Só que há aí um outro problema: a China não sabe muito bem o que é isto da União Europeia, deve fazer-lhe alguma confusão esta coisa de 27 países que decidem tudo numa grande conversa. Precisa de alguém em quem confiar e acho que confia na Alemanha. Os alemães sabem que têm as costas quentes, que a entidade mundial que mais pode ajudar o euro está com eles. Estão relativamente à vontade. Quem deve estar relativamente aflito é a França. São os que vierem a seguir [a Merkel e a Sarkozy] que vão ter, ou não, alguma capacidade para se entender.



Sobre quê?



Não sei. Mas a essa pergunta só se pode responder com outra: os outros países, que não a Alemanha, para onde é que podem ir? Para lado nenhum. A Alemanha está bastante à vontade.



Mas há também fragilidades dentro da própria Alemanha que não tornam as coisas assim tão simples. A Alemanha tem dois problemas. O primeiro é que é uma economia muito exportadora mas não é inovadora. Não há nada de novo que a Alemanha tenha criado nos últimos 50 anos. É extraordinária a melhorar aquilo que já faz há quase 150 anos: automóveis, mecânica, química. Está muito bem adaptada para fornecer países que se industrializam, que se urbanizam e que se motorizam. Mas tem uma grande dificuldade em inovar sobretudo quando as economias desenvolvidas passaram a ser economias terciárias. No sector dos serviços, já praticamente não há um nome alemão.



Isso quer dizer que o seu modelo pode esgotar-se rapidamente?



Isso quer dizer que está esgotado e que ainda tem vida apenas porque há economias emergentes. O segundo problema é que o modelo alemão, em termos financeiros, é totalmente oposto ao dos EUA e ao do mundo anglo-saxónico - é um modelo centrado nos bancos.



Os alemães continuam a poupar muito e a colocar muitos depósitos nos seus bancos. Esses bancos tinham tradicionalmente uma relação muito estreita com a indústria alemã, para onde canalizavam o seu dinheiro. O que acontece é que hoje a grande indústria alemã financia-se nos mercados de capitais, que são uma invenção anglo-saxónica. Com muitos depósitos a afluir e com menos negócios tradicionais para aplicar o dinheiro, eles tiveram de ir à procura de aplicações altamente rentáveis e foram comprar coisas como o subprime, do qual foram os segundos grandes compradores. Importaram um vírus que o seu sistema imunitário não tem capacidade para gerir. E, então, para tentar obter novas receitas que lhes permitissem apagar os prejuízos que aquilo ia criar, lançaram-se a comprar dívida soberana dos países do Sul [da Europa].



E estão amarrados de pés e mãos.



É essa a minha opinião. E isso é uma segunda grande fraqueza, que limita a margem de manobra alemã. Os espanhóis já percebem isto perfeitamente e sabem que um default desorganizado da Europa do Sul lhes seria fatal... Isso faz com que haja um factor de coesão mas, ao mesmo tempo, de muita tensão: os espanhóis não gostam de ser maltratados e os alemães de estar amarrados.



O modelo alemão tem as limitações que descreveu. O modelo anglo-saxónico está a atravessar uma crise. Como é que a China joga com isto?



Não sei, mas admito que quem deve estar assustado são os chineses.



É preciso compreender a crise financeira de 2008. Os EUA são uma economia que tem défices correntes com toda a gente - com a Europa, com os produtores de petr? leo, China, Japão, Taiwan. E isso é uma coisa absolutamente lógica. Os EUA permitiram que a Ásia se desenvolvesse ao transferirem para lá a produção de muitas das coisas que consomem. O que acontece é que nenhum dos outros possui um sistema financeiro próprio capaz de reciclar essa quantidade toda de dólares e, por isso, tem de recolocá-los nos EUA. A questão fundamental é que os Estados Unidos têm de produzir activos em que toda a gente confie e queira comprar como forma de colocar as suas poupanças. O grande problema que penso estar na base desta crise financeira foi que, pela primeira vez, os EUA não tinham activos suficientes para colocar. O Lehman, o Morgan Stanley, eram absolutamente cruciais na economia mundial porque são eles que transformam latão em ouro e que o colocam à venda no mundo inteiro. Não vale a pena dizer que a crise se deve a um bando de gananciosos. O grande problema, que pode marcar o fim da globalização e o declínio americano, é a incapacidade de produzir esses activos.



Este modelo de globalização tem de ter sempre no seu centro os Estados Unidos, com os seus défices. Que funcionam como uma espécie de capital de risco do mundo inteiro.



A China tem a noção disso?



A China precisa dos EUA mas não quer que a Europa desapareça do mapa e fará tudo para ajudar a mantê-la. Já está a comprar títulos de dívida gregos e espanhóis.



A questão é outra. A Espanha andou a criar uns leitõezinhos que já são muito apetitosos: a Telefónica, a Repsol, a Iberdrola, etc. No nosso caso, a Galp, por exemplo. Penso que esta crise é aquela em que alguém vai dizer: meus caros amigos, é altura de os leitões irem para o mercado para serem comprados por quem tiver dinheiro para comprar. O pior que pode acontecer nesta crise é haver uma transferência maciça da propriedade no Sul. É os chineses comprarem tudo o que lhes interessa na Grécia - o Pireu, os armadores...



E em Espanha e Portugal?



Os árabes, talvez. A Europa vai ser salva pelas compras dos chineses e dos árabes e, no caso português, também dos angolanos. Esta é a parte económica, que pode ser muito complicada pela parte geopolítica.



Como?



Em boa medida, por causa da energia. O abastecimento energético da China é um problema-chave para o seu futuro. Eles tinham três hipóteses de o resolver. A primeira era irem para o off-shore do Mar do Sul da China, mas aí tinham um grande problema. A China é uma entidade que não existe, economicamente falando. Tem a fatia costeira que faz parte do mundo da globalização e tem o resto. Esta parte costeira viveria muito bem sem nenhuma ligação com esse resto, da mesma maneira que vivem os coreanos, os japoneses, os taiwaneses, exportando produtos e importando o que não têm. Esta zona próspera e em crescimento - foi esta zona que os EUA arrancaram do atraso - tem toda a vantagem na continuação da globalização, dificilmente pode viver sem ela.



Se os chineses fossem para a opção do off-shore, esta região ainda ficava mais independente e ainda precisaria menos do resto da China. O poder em Pequim tem perfeita consciência do risco que isso comporta e, por isso, defende uma segunda hipótese, a hipótese continental, em que tem de ir buscar o petróleo e o gás à Rússia e, sobretudo, à Ásia Central, que tem de atravessar toda a China. Isso permite-lhes convencer essa China da faixa litoral de que precisa do resto do país e de que precisa do poder central para organizar isto tudo.



A terceira alternativa é dizer: para já, vamos ao Golfo Pérsico e a Angola buscar a energia de que precisamos. Isso tem um problema: as linhas de comunicação marítimas são extensíssimas e quem garante a sua segurança é a América. A dada altura deve haver uns almirantes loucos em Pequim que vão dizer: temos de constituir uma grande marinha. E no dia em que decidirem fazer isso a guerra está no horizonte.



Isso contraria a nossa ideia de que o desenvolvimento ajudará a integrar a China.



Ninguém liga nenhuma a estas coisas mas elas são fundamentais. O poder em Pequim tenta resolver este imbróglio optando pela Ásia Central. Mas aí vamos ter ao Afeganistão. No dia em que os americanos saírem, vamos ter a Índia, que não quer que os chineses vão para lá; os russos, que não querem que os chineses vão para lá; e os chineses que vão entrar lá de mãos dadas com os taliban com que estavam a negociar antes do 11 de Setembro. Porque o controlo sobre o Afeganistão é a chave para uma estratégia de abastecimento por via da Ásia Central. É a única que lhes permite resolver o problema dos almirantes loucos.



Ou as rotas ou o Afeganistão?



E uma terceira, que é quando [a secretária de Estado Hillary] Clinton vai ao Vietname e declara que os EUA querem pacificar o Mar do Sul da China, que é precisamente onde os chineses também podem ir buscar petróleo. Em todos os sítios onde eles querem ir buscar petróleo, os americanos estão envolvidos.



Neste jogo global, qual é o papel da Europa?



A Europa vai ser comprada pela China e pelos príncipes árabes.



E se isso, por hipótese, acontecer, que papel lhe resta?



Vai dividir-se em dois grupos. O Reino Unido já foi à Índia dizer que os paquistaneses eram uns patifes, porque sabe que eles são os aliados da China para este jogo. O que [o primeiro-ministro David] Cameron foi lá dizer agora foi o seguinte: nós estamos com a Índia e não com a China. Está a ver perfeitamente o jogo e ficará deste lado.



Quanto aos árabes, ainda não consigo perceber verdadeiramente o que querem. Há na OPEP um conjunto de gente que quer atacar a importância do dólar e deixar de depender de um dólar que eles temem que vá colapsar.



E também lhes interessa apostar no euro?



Exactamente. Vão continuar a dispor de grandes excedentes que lhes dão para comprara a Repsol e os outros leitõezinhos. Vamos ter uma Europa cheia de príncipes nos conselhos de administração e de chineses a financiar os Estados. E isso vai permitir que a Europa sobreviva.



Sobreviva?



É o nosso pequeno mundo. O grande mundo é a OPEP e também o Irão, a China e os EUA.



Como é que nós, portugueses, nos vamos adaptar a esta nova situação?



Penso que os alemães simpatizam connosco. Investiram cá, têm uma boa experiência, e não fizemos nada recentemente que os levasse a mudar de atitude. Portugal acumulou um capital relativamente à Alemanha que é positivo e que o distingue da Grécia. Mesmo passando entre os pingos da chuva, não estamos assim tão mal no nosso relacionamento político.



Com a Alemanha? Nos cenários que fez em 2002 colocava três alinhamentos possíveis - a opção ibérica, o alinhamento francês e a "Casa de Borgonha", que seria com o Benelux. A ibérica está em discussão - entre eles e entre nós. A França está em situação difícil e o Benelux falhou.



Não sei. Eu estou à janela e apenas posso dizer: aquele que está a passar ali vai ser atropelado. Penso, no entanto, que a Holanda continua a ser crucial e, quando a Bélgica se desintegrar, a Flandres pode ser a nossa maior amiga. É preciso reflectir muito sobre isto, mas creio que há três países que nos interessam: a Alemanha, a Holanda e a Noruega.



A Noruega?



A Noruega devia ser o nosso aliado principal por causa do petróleo, do mar e da exploração da plataforma continental.



Alguns dos cenários do exercício que fez mais recentemente [Portugal 2025 - que funções no espaço europeu, cuja recente actualização considera quatro cenários: "Florida Europeia", "Plataforma Asiática", "Escócia do Sul", "Ponte Atlântica"] consideram a plataforma energética que poderíamos constituir como relevante.



Exacto. Por isso, a Noruega é um parceiro possível - é atlântico e está muito próximo da UE. Fizemos um trabalho sobre as empresas energéticas na Europa e a Statoil [norueguesa] é uma coisa extraordinária - a forma como eles conseguiram estar no mundo inteiro. Mas falo da Noruega se decidirmos fazer uma aposta na plataforma continental, na sua extensão. Os alemães podem também estar interessados, porque não têm mar. Mas entre alemães, noruegueses e holandeses... A Noruega e a Holanda são o mundo atlântico. A Alemanha é o mundo europeu de que não podemos fugir.



Isto não tem de ser contra a Espanha...



Mas há um elemento permanente na cenarização para 2025 que passa pela ideia de que não deveremos ser apenas a fachada atlântica da Espanha.



Esse problema existe, só que uma parte da elite portuguesa não o quer ver. O actual Governo era "Espanha, Espanha, Espanha". Cavaco Silva era "Espanha, Espanha, Espanha". Temos de ter uma boa relação com a Espanha. Isso está fora de causa, mas temos de ver é como é que fazemos isso.



Voltando aos cenários. Parece-me comum a todos que a geografia volta a ganhar peso, depois de ter sido, de algum modo, absorvida pela Europa. É essa a mudança?



A questão central é que, em qualquer dos cenários, Portugal tem de se tornar mais atractivo. Na nossa encarnação anterior, não precisávamos de ser particularmente atractivos. Bastava sermos bem-comportados, cumpridores das normas europeias. Isso até nos criou alguma respeitabilidade. Íamos subindo os degraus.



O que me parece é que, neste estado de tensão em que a Europa vai estar, temos de ter uma maior consciência daquilo que podemos querer.



Que já não pode ser o mesmo?



O nosso percurso de convergência com a UE foi interrompido há 10 anos e agora agravado pela crise.



A resposta que foi dada à crise por este Governo é muito interessante. É uma resposta de emergência, mas o facto é que fomos ter à Líbia, Argélia, Venezuela e Angola. A primeira razão é o petróleo. Mas há outra coisa em comum: à excepção de Angola, todos têm relações tensas com os EUA. Fomos à procura de parceiros que estão completamente fora do nosso alinhamento estratégico, embora pudessem dar bons negócios. Conseguiu-se aumentar as exportações para esses países. O primeiro-ministro fez como Paulo Portas: passou a ir às feiras. Estava habituado a andar nos supermercados e passou a ir às feiras. Não estou a pôr isso em causa, possivelmente não podia fazer outra coisa...



É aí que entram os outros cenários. Num dos que considera, podemos transformar-nos numa plataforma intercontinental alinhada com a Ásia, em que o investimento que substitui o alemão é o asiático...



Mas que se insere muito bem nesta estratégia da Europa próxima da Ásia... O primeiro-ministro chinês, nas declarações que fez sobre o euro, disse que não nos podemos esquecer que a Europa é sempre um campo de investimento prioritário para a China.



E há ainda outro cenário que é o "escocês"...



Esse é apenas se houver descobertas de petróleo e de gás no nosso off-shore, o que provocaria uma grande mudança. Mas mesmo não havendo petróleo, esse cenário não é impossível. Utilizei a ideia da Escócia porque ela se desenvolveu muito fornecendo serviços de engenharia para o Mar do Norte. Desse ponto de vista, a bacia da África Ocidental podia ser o nosso Mar do Norte. Essa função podia ser desenvolvida aqui e o Brasil pode ser um parceiro fundamental.



No outro cenário, o da "ponte atlântica", estamos com o Brasil mas mais numa posição subalterna. É a ideia de que a CPLP pode ter indonésios, australianos - é aquele em que podemos tentar fazer do mundo de expressão portuguesa uma força. Penso, no entanto, que só temos interesse nisso se conseguirmos alinhar mais o mundo de expressão portuguesa com o mundo de expressão anglo-saxónica. Porque o primeiro, sozinho, nunca tem muita força.



O que também há de comum é a ideia de que deveríamos aproveitar melhor a globalização...



Estes cenários são do DPP, mas são feitos por mim. Se o DPP tivesse de se pronunciar hoje, preferiria que eu nunca os tivesse feito. Está numa posição muito melindrosa. A maneira como encaram isto, os mais novos, é diferente. Tudo isto foi feito por uma geração - a nossa - que foi ensinada desde pequena na gestão dos conflitos e na paixão pelos conflitos. A geração deles é a geração da procura da felicidade.



Só que a crise mundial obriga-nos a pensar no que pode correr mal.



O grande problema é que a adesão à moeda única teve como consequência uma fuga generalizada perante a globalização. Quem se endividou mais não foi o Estado, foram os bancos, para alimentar o consumo interno. E esse consumo é uma forma de alimentar as exportações alemãs e italianas, etc. Isso teve duas consequências: facilitou as importações e criou uma atracção enorme pela terra e pelo investimento no imobiliário como grande forma de obter lucro. As famílias podem consumir importando porque têm financiamento bancário e o sector empresarial tem uma oportunidade enorme em torno da terra - da terra para os portugueses e depois, pelos PIN [Projectos de Interesse Nacional], a terra para estrangeiros. Foi esse o esquema que nos levou a uma situação muito complicada. Temos cada vez menos para oferecer para o exterior. O facto de deixarmos de importar não acho mal, o problema é que se criou um sector de emprego muito grande à volta daquilo que se importa. Basta ir aos centros comerciais.



E os grupos económicos e a banca vivem do mercado interno.



No ano passado, a ANEOP [Associação Nacional dos Empreiteiros de Obras Públicas] fez uma publicação maravilhosa que dizia o seguinte: a construção, ela própria, representa 8 por cento do PIB em 2009; o cluster da construção no sentido mais alargado - matérias de construção, promoção imobiliária, serviços ligados à habitação, obras públicas - representa 18 por cento do PIB e absorve 72 por cento da totalidade do crédito concedido pelo sistema bancário. O que sobra é para as PT, as EDP e o resto é nada. É um problema diabólico.



Precisamos de atrair investimento, o que pode implicar várias coisas, entre as quais um sistema fiscal mais competitivo.



A fiscalidade não é tudo. Trouxemos cá o presidente da Infosys [empresa indiana líder mundial nas tecnologias da informação], o senhor Murty, para uma coisa sobre as tecnologias da informação. Queríamos trazer alguém de topo no sector e que fosse indiano. O senhor foi capa da Time mas aceitou vir cá com muita facilidade, trouxe a mulher e umas amigas da mulher que eram goesas, foram aos Jerónimos e tudo isso. A certa altura, quando o trazíamos do aeroporto, perguntámos-lhe porque é que nunca tinha investido em Portugal. Ele respondeu que, para isso, tinha que ter resposta a algumas perguntas prévias. Quais eram as perguntas? Como é que é a relação das vossas crianças com a matemática; a partir de que ano é que escrevem e falam inglês correctamente; como é que estão de talentos; e quantos engenheiros informáticos formam por ano.



Quando foi isso?



Em 2007. Levámo-lo à Agência de Investimento, onde foi muito bem recebido e lhe explicaram que Portugal era fantástico, não tinha greves, era flexível, o IRC era de 25 por cento. Ele ficou calado todo o tempo. Até que lhe perguntaram o que é que achava. Ele respondeu mais ou menos isto: "Achei tudo muito interessante, mas só quero fazer uma pergunta: eu posso premiar os melhores ou não?"



Essas quatro coisas que ele mencionou têm todas a ver com o capital humano e nada com fiscalidade.



Absolutamente. E a outra, tem a ver com o processo de organização social. O que estou a dizer é que, por exemplo, para uma fábrica de automóveis a questão dos impostos é chave. Mas para ter empresas informáticas ou clínicas de alta qualidade, pode não ser tão importante. Isso obrigaria a ver, em primeiro lugar, o que é que queremos atrair nesta fase e o que podemos atrair. E até podemos concluir que é muito mais importante no futuro não ter um IRS muito pesado sobre os quadros do que ter um IRC baixo para as empresas. O cenário da Florida, por exemplo, tem muito mais a ver com talentos.



Já produzimos alguns talentos mas a tendência parece ser a de se irem embora.



Essa questão só se resolve com investimento estrangeiro. E a única alínea da política industrial de um país como Portugal é a atracção de investimento.



Olhando para os cenários que nos projectam mais na globalização, onde é que precisamos de apostar?



Este trabalho que fizemos agora para a ANEOP está muito centrado nas infra-estruturas para lhes chamar a atenção de que, conforme os cenários, assim será a actividade no sector. O cenário da "plataforma asiática" é o mais exigente em infra-estruturas. Grande aeroporto, porto de águas profundas (Sines), caminho-de-ferro para mercadorias para a Europa.



Mas não vale a pena pensar em infra-estruturas se não estivermos, ao mesmo tempo, a atrair os investimentos que necessitem delas. É isso que me custa a perceber, não sermos capazes desse exercício... Temos de encontrar quem são os actores que estão interessados em vir para aqui. E isso não se pode definir à partida, embora haja coisas que se podem saber. Penso, por exemplo, que devemos olhar para Estados intersticiais como Singapura ou o Qatar, com pouca base territorial, mas ligados ao mundo e que precisam de bases. Devíamos olhar para eles como aliados para fazermos aeroportos ou portos de águas profundas ou para termos parceiros para a TAP.



Onde é que vamos encontrar os actores políticos, económicos, sociais para conseguirmos isso?



O que vai tornar este período mais difícil é ainda não se saber exactamente a natureza desta crise. Se esta crise for uma crise de rearrumação da globalização, quem estiver cá a governar vai ter de exercer funções que antes não eram precisas por causa da Europa. Vamos demorar tempo até nos adaptarmos a esta nova realidade e vai levar tempo a que a classe política evolua. Isso não quer dizer que a Europa não tivesse sido boa. Mas criou, em simultâneo, um modelo de funcionamento que não gera as exigências que agora vão ser precisas. As pessoas espantam-se que os dirigentes políticos tenham perdido qualidade. Era inevitável. Era um grupo que devia apenas seguir o que se decidia em Bruxelas, não era preciso mais.



Agora, vamos atravessar um processo dramático onde vão aparecer muitos falsos profetas mas em que o nível vai mesmo ter de acabar por subir. Imagino que sim.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

A questão de DEUS e o capitalismo

Em dois "posts" aqui colocados intitulados " A Inteligência das Nações e o seu Desenvolvimento " falei de Spengler e de Tonybee. O primeiro anunciou que qualquer civilização ( e já falava a pensar na Europa ) passava por uma fase de crescimento - a fase da cultura - e terminava num processo de declínio - a que chamava a fase de civilização.

Toynbee no seu grande tratado " Um Estudo  de História " retomava o tema e chamava a atenção para a importância da Religião sendo até o primeiro a chamar a atenção para o choque entre civilizações cristãs e a muçulmana. Isto há um século.

Tanto um como o outro foram influenciados pelo monstro sagrado da sociologia , Max Weber, que se preocupou imenso em compreender como certos países se desenvolviam mais através do capitalismo que outros.

Os três juntos ( a que se juntou mais tarde esse outro enorme pensador e romancista que foi André Malraux )  achavam que o problema da temporalidade ( a noção subjectiva do tempo - e sobre isto escrevi um post nos inícios deste blog a que chamei a "Parábola do tempo e do relógio" ) que não é o tempo cronológico,  estavam na origem de muitos dos "humores" ontológicos da nossa espécie . Spengler disse mesmo, muito antes de Heidegger que o Homem se preocupava com o Devir, enquanto os animais " estavam ancorados no aqui e no agora" e isso mesmo os diferenciava.

Recentemente esta questão voltou às preocupações de filósofos e politólogos, bem como dos psicólogos sociais, e um professor de Literatura e filósofo de nomeada, Samuel Weber, tem aprofundado a questão. E ela não é de somenos.

Já aqui disse que um dos factores ( o outro é o Poder e a sua noção ) que vai ditar o nosso futuro é a questão da temporalidade. A qual recorda de imediato a célebre frase de Benjamim Franklin : "tempo é dinheiro!"

Pois S.Weber , numa recente conferência, achou por bem provocar a plateia com o título inverso:-" Money is Time !".Assim inverteu o pressuposto de todos , segundo o qual o protestantismo com a Reforma calvinista que ocorreu no centro e norte da Europa estaria na base do aproveitamento da então revolução industrial nascente, dando aos ingleses , holandeses , alemães e outros nórdicos um avanço enorme em relação ao resto do mundo. A tese era a de que o enriquecimento era ,para os protestantes, visto como um sinal de salvação. De resto quando vemos um filme americano ou nórdico, até um do far-west em que a família antes de se sentar a comer dá Graças a Deus pelas boas colheitas ou a riqueza que lhe permite comer peru em vez de feijões, temos um espelho chapado do que quero dizer. E isto , se conjugado à influência que nesses países teve a filosofia de Kant (e do Dever kantiano ) ajuda , de facto , a entender melhor como povos tão arcaicos como os da Noruega, Suécia ou Alemanha ( com ou sem matétias-primas -  carvão e ferro ) se adiantaram no contexto das nações.

E também ajuda a entender como os latinos , ao contrário , escondiam a sua riqueza, como se de um pecado se tratasse ; e como os nórdicos têm compaixão ( que os obriga à solidariedade ) e como os latinos católicos se ficam pelo ter-pena-de ( que os obriga à esmola, simplesmente).


2. A  Crise

A crise que o mundo capitalista vive não é a primeira. No séc. XV na Holanda surgiu uma enorme crise capitalista que tinha como objecto a especulação de bolbos de tulipas; as tulipas e seus bolbos que haviam sido trazidas do oriente por nós portugueses, chegaram á Holanda pela mão dos exércitos do Duque d'Alba comandante das tropas dos reis Filipes de Espanha ( e Portugal ocupado ) e chegaram a ser vendidas e revendidos dez vezes por dia ( o mesmo bolbo ) sempre por preços escandalosamente mais altos...até que após seis meses de delírio especulativo a coisa faliu, não havia compradores para os bolbos mas havia uma multidão de falidos famintos ( ver George Cooper: "A O rigem das Crises Financeiras").
E porque não é a primeira,  podemos "captar" nesta questão do dinheiro um certo cheiro a Deus. Explico-me. Quando o vígaro Bernard Madoff levou milhares à falencia  há  tres anos clamava que era Deus; mas quando muitos dos roubados eram ouvidos diziam, como foi o caso  do escritor judeu Elie Wiesel, "Nós pensávamos que ele era Deus!".

Ou seja, parece haver uma dimensão de teologia na questão do dinheiro. A  minha experiência clínica deu-me um informação preciosa sobre o modo como as gentes lidam com o dinheiro sendo que o maior fascínio do dinheiro é o dinheiro gerar dinheiro: daí a frase de Weber , dinheiro é tempo!.

Em boa verdade a tradição cristã esforça-se por pensar o tempo como um infinito, uma perenidade. Não morremos porque vamos para o Céu, ou viveremos por reincarnação ( nem que seja num piri-lampo, como acham espíritas e não só ). E isto tem lógica já que Deus só pode ser entendido como uma Entidade única na intemporalidade e e na imortalidade, mas, e sobretudo como um criador de criaturas imortais, mas que se tornam mortais por via da culpa e do pecado.

Já antes da actual crise ser despoletada, a falência da EMRON , nos Estados Unidos tinha sinalizado que o sistema ( capitalista ) seguia sem regras nem rumo certo e que funcionava exclusivamente para produzir mais lucro , mais dinheiro para um número restrito de pessoas . O lema era : UM MÁXIMO DE LUCRO NUM MÍNIMO DE TEMPO.

E isto também obedecia a uma lógica que era o que não cresce morre!. O próprio Marx escreveu no CAPITAL, a sua grande obra, que o capitalismo era algo para o qual cada limite era uma fronteira que devia ser ultrapassada. E foi-o. Basta ver como todos os gestores, administradores, gerentes nem que fosse de tremoços tentavam enganar o tempo de modo a esticá-lo para se Deificarem aos olhos dos outros e recheio dos seus bolsos.


3 - É por tudo isto que  comungo da ideia de que a grande diferença  do cristianismo ( a partir da Reforma de Calvino  ) em relação ao judaísmo, é a ideia cristã de que um cristão pode cair no pecado mas é possível salvá-lo. E é também por tudo isto que que o capitalismo deve ser considerado não  meramente como o efeito duma religião, mas como uma manifestação religiosa em si mesma, respondendo às mesmas preocupações e problemas de uma religião. E é curioso que Franklin  invoque o juro como a característica principal da religião capitalista mais que a exploração do trabalho-social, que em Marx era o factor decisivo da produção da mais-valia.

E, finalmente, e enquanto psiquiatra, questiono-me, se, aquilo que até agora tem sido apresentada ao mundo como  causa da actual Grande Recessão - ou seja  o sentimento de avareza - pode considerar-se como tal e como a origem de todos os males ou excessos da capitalismo num contexto duma sociedade assim.
Questiono-me sobre isto, mas entendo e acho que , como Spengler e Toynbee, que  estamos na fase de declínio da nossa civilização, que esta ( como se vê por todo o lado)  não quer aprender com os excessos do passado ( a tendência para a hipertelia está absolutamente presente ) e que a quantidade que se sucedia à qualidade como dizia Spengler, está aí e é um péssimo sinal.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

ESMIRNA , A CIDADE QUE HÁ 100 ANOS PROVOU AS TESES DE SPENGLER E TOYNBEE

14:50 (JPP)



(este notável texto de José Pacheco Pereira a fazer o que ele faz bem que é Historiar, serve de exemplo ao ensaio , neste blog publicado, sobre a intelegência das ´Nações e o  seu desenvolvimento. Neste texto é narrada a fase de "cultura" da cidade de Esmirna e depois a sua fase ( letal e fatal ) de civilização para usar os termos de Spengler - mostrando como é na fase de declíneo ou civilizacional, mas já não de cultura, que uma Nação implode ou se suicida- neste caso~é a maioria grega que, ufana chama os ingleses para fazendo frente a quem nunca os tinha ameaçado - os turcos -, realmente se suicidarem! )


NUNCA É TARDE PARA APRENDER: DE REPENTE


Giles Milton, Paradise Lost: Smyrna 1922 – The Destruction of Islam's City of Tolerance, Sceptre, 2009.


De repente, em cinco ou seis anos, depois de séculos e séculos, todo um mundo rico, estruturado, "civilizado", cosmopolita, estável pelo menos à superfície, cai para os maiores extremos da barbárie. Se há uma lição da história é só essa: nada está garantido, tudo é precário. Esmirna (a actual Izmir) era uma cidade opulenta, com todos os luxos ocidentais, hotéis, ópera, um porto florescente, indústrias exportadoras de têxteis e frutas, armazéns, fábricas, escolas internacionais, igrejas, missões e hospitais. Muitos estrangeiros lá viviam, americanos, ingleses, italianos, numa cidade que era única num aspecto e que marcou o seu destino trágico: Esmirna era maioritariamente cristã. A cidade e a costa à sua volta eram gregas, e, na cidade, gregos e arménios eram mais do que os turcos. No império otomano, como se passava em Salónica, os turcos detinham o poder político e eram uma elite militar que beneficiava de um estatuto de superioridade, principalmente fiscal. Mas as outras comunidades viviam com liberdade, debaixo do controlo das suas próprias hierarquias religiosas. Acresce que Esmirna tinha como governador turco um genuíno tolerante, Rhamy Bey, que apreciava o cosmopolitismo da sua cidade e que convivia com facilidade com todas as comunidades. Na cidade, a elite era "levantina", constituída por famílias estrangeiras, inglesas, francesas e italianas, que aí viviam nalguns casos há trezentos anos, fiéis aos seus países de origem e à cidade de Esmirna. Essa comunidade detinha o controlo dos negócios lucrativos da cidade, empregava gregos e turcos nas suas fábricas e vivia na opulência, em grandes mansões com famílias extensivas, que estudavam em Inglaterra e depois regressavam a Esmirna para continuar os negócios dos seus pais e tios, sob a mão de ferro de um familiar mais velho, homem ou mulher. Parecia o Porto, onde uma antiga comunidade inglesa, vivia assim.

Até um dia. A entrada do Império otomano na guerra ao lado dos alemães começou a fragilizar uma comunidade estrangeira que estava maioritariamente do lado anglo-francês. Mas aqui Rhamy Bey ainda conseguiu proteger a sua cidade, no limite da traição. Os ingleses, a quem ele se ofereceu na prática, maltrataram-no e só os seus amigos levantinos o ajudaram. Mas foram os gregos (como o apoio de Lloyd George) que ditaram o fim trágico de Esmirna. Venizelos, primeiro-ministro grego, debaixo da bandeira da Megali Idea, a tentativa de reconstituir o Império bizantino na Anatólia, contando com as comunidades gregas que aí viviam há milénios, enviou tropas para Esmirna ocupando a cidade, exercendo violências contra os turcos e penetrando no interior até perto de Angora (Ankara). A entrada dos gregos não foi particularmente bem recebida pela comunidade levantina, que se começou a aperceber do desastre, mas foi saudada com entusiasmo pelos gregos de Esmirna e das aldeias limítrofes. Só que não contaram com a resposta nacionalista turca, na pessoa de Mustafá Kemal, mais tarde conhecido como Ataturk. Kemal venceu os gregos e caminhou em direcção a Esmirna, que os turcos não esqueciam ser a Gavur Izmir, a "Esmirna dos infiéis". O que se passou a seguir foi um dos grandes massacres do século XX: armenos e gregos foram massacrados em grande número, as mulheres violadas em massa, culminando no incêndio deliberado de quase toda a cidade menos o quarteirão turco, o mais pobre. E a gloriosa Esmirna, hotéis, cafés, restaurantes, consulados ocidentais, igrejas, mosteiros, escolas, hospitais, casas comuns e de luxo, armazéns e fábricas, ardeu durante vários dias. Uma população calculada em 500.000 pessoas, estrangeiros, gregos e arménios acumulou-se no cais de Esmirna entre o fogo, os turcos e o mar, morrendo aos milhares. Um testemunho da época descreve o mar pejado de cadáveres, no meio dos quais nadava um rapaz turco a tentar retirar tudo o que era valioso dos corpos. Em frente, não fazendo nada, uma esquadrilha de navios de guerra ingleses, americanos, italianos e outros, que assistem ao que se passa à sua frente sem se mexer. Quando começaram a aceitar refugiados já era tarde para salvar um número significativo de pessoas. Mesmo os gregos só se mexeram por iniciativa de um missionário americano que praticamente se comportou como se fosse almirante da frota grega e obrigou os capitães gregos a irem a Esmirna salvar os seus.
De repente, tudo mudou. Uma realidade histórica e étnica com milhares de anos, a dos gregos da Jónia, e dos enclaves cristãos no Império Otomano, acabou em meia dúzia de anos e em meia dúzia de dias. A nova Turquia nacionalista partia com uma limpeza étnica que deixava apenas um "inimigo interior "significativo: os curdos. E a Megali Idea, o mito nacionalista imperial dos gregos, ficava pelo caminho. Pelo caminho também ficou uma cidade cosmopolita, moderna, "civilizada", tolerante, que a actual Izmir em nada revela. Como Hitler fez com as comunidades judaicas do Leste, a geografia humana mudou radicalmente. Infelizmente, isto é que é a história.