segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

UM , MAIS UM TEXTO DE ZÉ PACHECO PEREIRA , PARA MEDITAR ANTES QUE SEJA TARDE

A NOVA LUTA DE CLASSES

Há dias, no programa Prós e Contras, um conselheiro de "empreendedorismo" teorizava, de forma prosélita e desenvolta, sobre as más escolhas de "projecto de vida" que justificariam muito do desemprego actual. Era evidente pela conversa, que achava que existia uma espécie de culpa individual em se estar desempregado. Pelo meio, perguntou, com evidente escárnio, a um desempregado se este tinha tirado um curso de História, uma imprevidência para quem quer ter um emprego. Não tenho dúvida de que quem formulava esta pergunta fazia parte de um dos lados do novo binómio da luta de classes descrito por Passos Coelho, o dos "descomplexados competitivos". O curso de História, se tivesse feito parte do currículo do desempregado, colocá-lo-ia de imediato na categoria de "preguiçoso autocentrado", antiquado e inútil, "piegas" e queixoso, a quem é preciso dar um abanão de pobreza a ver se se torna "competitivo". Estamos, como já referi, perante uma nova forma de luta de classes: a que opõe "descomplexados competitivos" a "preguiçosos autocentrados". Pelos vistos, uma característica destes últimos é que se interessam por História. 


É verdade que saber História vale muito pouco no mercado de trabalho, mas também é verdade que saber Matemática pura, Física Teórica, Astronomia, Biologia Molecular, já para não falar de Filosofia, Sociologia, Geografia, Grego Clássico e Latim, Literatura Portuguesa, também não valem muito mais. E, by the way, os milhares de licenciados em Marketing, Economia, Jornalismo, ou como se diz agora "Ciências de Comunicação", Artes Performativas, Arquitectura, Composição, os pianistas, violoncelistas, violinistas, também não vão muito longe. Seguindo o critério do nosso mago do "empreendedorismo", não é muito difícil, e no meu caso gratuito, aconselhar cursos seguros e certos. Eu costumo aconselhar maltês, uma língua de que há enorme escassez de tradutores e intérpretes na UE, e o turco, russo, chinês e árabe também podem fazer parte do currículo dos candidatos a "descomplexados competitivos". Mandarim ou cantonês de certeza que têm futuro, assim como "beber a água do Bengo", na exacta composição químico-financeira corrente para esses lados.


Saber de História não é garantia de nada, nem o conhecimento da História garante que se saiba governar um país. Mas ajuda, ajuda pelo menos a ter-se uma visão menos cega da nossa missão no governo das coisas privadas e públicas, e a conhecer alguma coisa sobre os limites do voluntarismo político. E ajuda bastante a não se ser ignorante, nem a se actuar como um ignorante quando se pensa que tudo começa em nós, essa ilusão adâmica muito corrente nestes dias.


A História ajuda nas coisas grandes e nas pequenas, torna o mundo mais interessante e alimenta a curiosidade e o engenho. Para gostar de comer um croissant não é preciso olhar para ele com os olhos da História e perceber que se está a cometer um acto muito pouco politicamente correcto de turcofobia, ou, pior, de islamofobia. Mas quem sabe o que é e de onde vem o croissant, costuma saber um pouco mais sobre a História da Europa e isso faz bem à sanidade do debate público. Muita asneira que para aí circula sobre os feriados e o seu significado, sobre a Maçonaria, sobre o comunismo, sobre o fascismo, sobre a democracia, poderia ser evitada lendo um pouco mais sobre História. 


A História, como todas as formas de cultura viva, é uma forma de saber e olhar. Engana e ilude muito, mas também modera a tendência para a vã glória. Se é que a História nos ensina alguma coisa, é que poucas coisas são realmente importantes e que 99,99% dos casos o que fazemos pouco muda, ou não muda nada. Para os governantes, é obrigatório, para se enxergarem melhor, uma actividade que normalmente não lhes "assiste". Países como o Reino Unido, ou os EUA, têm a História no centro da política, o que nem sempre dá bons resultados, como se vê em França, onde todos os Presidentes do passado achavam que eram uma encarnação de Vercingétorix, Joana d"Arc, Luís XIV, Napoleão ou De Gaulle e os actuais já ficam contentes em serem como o Astérix.


O discurso de Odivelas do primeiro-ministro ganhava alguma coisa com a História, embora, como ele se encontra na categoria dos "descomplexados competitivos", não ligue muito a uma disciplina dos perdedores. Mas assim saberia que, antes de nomear os "preguiçosos autocentrados" como seus adversários, deveria pensar duas vezes sobre o papel que o epíteto de "preguiçosos" tem quando é usado genericamente para designar grupos ou comportamentos sociais. Para os colonos, os "pretos" eram a quinta-essência dos "preguiçosos" e por isso deviam ser obrigados a trabalhar à força de castigos corporais. Puxem pela língua a muitos patrões e aos seus capatazes (hoje chamam-se "responsáveis pelo pessoal"), às "patroas" sobre as suas "criadas", e o epíteto de "preguiçoso" aparece quase de imediato. Em países em que coexistem zonas industrializadas com regiões rurais, os habitantes dessas regiões, o Alentejo, a Galiza, a Andaluzia, o Sul de Itália, são descritos em anedotas como "preguiçosos". Nos campos trabalha-se muito, dependendo do ciclo agrícola, e há períodos de inactividade, onde, como toda a gente sabe das anedotas, os alentejanos estão debaixo de um "chaparro" a ver o mundo passar em slow motion.

Existe, aliás, outra classificação que costuma vir junto, a de associar essa ruralidade à falta de inteligência e dificuldade em socializar de forma adequada, ou seja, não só eram estúpidos, limitados, como não sabiam comer à mesa. É para isso que servem os epítetos de "saloios" ou de "labregos", a interessante migração da palavra galega para camponês, que veio junto nos anos trinta e quarenta do século XX com os galegos, que a miséria da sua terra trouxe para trabalhar em mercearias e restaurantes, ou outros ofícios menores, em Lisboa e no Porto. O problema da História é este, o de tornar poucas palavras inocentes.


Na luta de classes entre os "descomplexados competitivos" e os "preguiçosos autocentrados", a ordem dos pares é interessante, quer na parte social, quer na do psicologismo vulgar. Os "preguiçosos" são primeiro preguiçosos e s?? depois são "autocentrados", e os "competitivos" são primeiro "descomplexados" e é por isso que são "competitivos". Os pares têm, por isso, uma ordem invertida: nos "preguiçosos", avulta a condição social, nos "descomplexados", a psicologia domina. Embora provavelmente nada disto tenha sido muito pensado e saiu assim, como poderia ter saído de outra maneira semelhante, este dualismo revela aquilo que os sociólogos chamam as background assumptions do seu autor. Os que estão presos na sua condição social, deixam soçobrar a sua psicologia no egoísmo; os dinâmicos psicologistas ultrapassam a sua condição social pelo êxito no mercado. 


O país divide-se assim entre funcionários públicos, vivendo do erário público, acima das suas posses, e fazendo tudo para ter feriados e não trabalhar (os "preguiçosos"), cultivando um egoísmo social assente em pretensos "direitos adquiridos" ("autocentrados"); e jovens yuppies, dinâmicos e empreendedores, com uma "cultura empresarial", capazes de correrem riscos ("competitivos"), sem cuidarem de terem "direitos" para subirem "por mérito" na escala social ("descomplexados"). Nem uns nem outros existem na vida real, nem sequer como caricaturas, que é o que isto é, mas isso pouco importa.


A História está cheia destes dualismos, velhos como o tempo, mas típicos da linguagem abastardada do poder dos nossos dias. É um esquema assente numa mistura de demonização e de wishful thinking, que circula assente num moralismo social, também típico dos dias que passam. A História revela o poder destrutivo deste tipo de discursos, que se tornam, de um momento para o outro, socialmente insuportáveis. 


Esse momento ainda não se deu, e os papagaios do "pensamento único" repetem este discurso sem pararem para pensar. Ou sequer para ler alguma coisa de História, mesmo com o risco de se tornarem "preguiçosos autocentrados".
(Versão do Público de 10 de Fevereiro de 2012.)

domingo, 5 de fevereiro de 2012

DÍVIDAS....quem as não tem - como dizia Sócrates com toda a razão


Finanças

A dívida oculta da Alemanha

23 setembro 2011
Presseurop
Handelsblatt
Handelsblatt, 23 setembro 2011
"A verdade" – é o título do Handelsblatt, que baseando-se em números espantosos, põe termo ao mito da alegada parcimónia do Estado alemão. Oficialmente, a dívida alemã, em 2011, é de 2 biliões de euros. Mas isso é apenas uma meia verdade, porque a maior parte das despesas previstas com reformados, doentes e pessoas dependentes não foram incluídas nesse cálculo. De acordo com os novos números, a dívida real ascende a mais 5 biliões de euros. Por conseguinte, a dívida da Alemanha atingiria 185% do seu produto interno bruto e não os 83% oficialmente anunciados. Como termo de comparação, a dívida grega em 2012 deverá ascender a 186% do PIB da Grécia e a dívida italiana é atualmente de 120%. O limitar crítico a partir do qual a dívida esmaga o crescimento é de 90%. Desde que chegou ao poder, em 2005, Angela Merkel "criou tantas novas dívidas como todos os Chanceleres das quatro últimas décadas juntos", refere o economista principal deste diário económico. "Estes 7 biliões de euros são um cheque sem provisão que nós assinámos e que os nossos filhos e netos terão que pagar."

AS AGRURAS DE PUTIN. A SEGUIR VIRÃO AS DE SARKOSY, MERKEL, OBAMA, ETC. ONTEM UM PARTIDO PRÓ-FEDERALISMO EUROPEU JÁ VENCEU AS ELEIÇÕES NA FINLÂNDIA , ALIADA ATÉ AGORA DA ALEMANHA , POR 70% DOS VOTOS...

retirado , surripiado , do blogue de José Milhases: "da rússia "

Putin começa a ser comparado a Murabak e Kadhafi

                                 São muitos, cada vez mais

                  Meio milagroso para proteger a cabeça de ideias liberais




                             Agradece por ainda estares vivo!

Dezenas de milhar de russos saíram para as ruas da capital russa a fim de exigirem a saída de Putin e do seu clã do poder.
Esta vontade juntou cidadãos dos mais diferentes sectores do espectro político russo. Nunca Moscovo viu bandeiras tão diferentes, cores tão diversas numa manifestação política, nunca uma manifestação juntou tantos opositores de Vladimir Putin, primeiro-ministro e candidato a Presidente da Rússia.
A polícia reconhece que se tratou da maior aglomeração de manifestantes da oposição, mas considera que, na marcha de protesto, participaram entre 30 e 35 mil pessoas, enquanto que os organizadores falam em mais de 130 mil participantes.
Os adeptos de Vladimir Putin juntaram-se noutro local de Moscovo para se manifestar contra as “revoluções-laranja”, cor da revolução democrática na Ucrânia em 2004.
Porém, esta cor não era a predominante no arco-íris que se estendeu por alguns quilómetros nas ruas do centro de Moscovo. Eram bem visíveis as cores dos nacionalistas russos que, além das suas bandeiras portavam um grande cartaz onde se lia “Mubarak igual a Kadhadfi e igual a Putin”.
Liberais, representados pelas cores branca, azul e laranja, distribuíam notas de um dólar com o retrato de Hillary Clinton e de cem dólares com o rosto de Obama, respondendo assim à acusação de Putin de que a oposição russa é financiada pelos norte-ameriacnos.
“Mais doze anos sem Putin? Quem conseguirá aguentar? Eu não!”, declarou à Lusa, empregado de escritório, que portava um cartaz do Sindicato dos Empresários da Rússia.
“Não fiquem surpreendidos por nos verem acorrentados, pois somos vítimas da corrupção e dos funcionários públicos corruptos”, declarou Mikhail, que se apresentou como pequeno empresário.
A marcha terminou com um comício onde os oradores apresentaram um caderno reivindicativo. Vladimir Rijkov, um dos organizadores da iniciativa da oposição,  lembrou que a oposição exige a anulação dos resultados das parlamentares de 04 de dezembro e a realização de eleições presidenciais limpas e transparentes.
Além disso, exige a libertação de presos políticos e a revisão da lei eleitoral de forma a facilitar os cidadãos e partidos a participarem nas eleições.
As manifestações em Moscovo realizaram-se com temperaturas do ar muito baixas, o termómetro marcava 20 graus negativos.

A VAIDADE IDIOTIZA AS PESSOAS . e QUANDO SÓCRATES REGRESSAR DAQUI A TRÊS ANOS?

Hostilidade

A nomeação de Manuel Maria Carrilho para a direcção do "Laboratório de Ideias Políticas" do PS só pode ser compreendida como um ostensivo acto de hostilidade em relação ao anterior secretário-geral, José Sócrates, que Carrilho acaba de achincalhar publicamente.
Um partido que não respeita e não salvaguarda o seu passado hipoteca o seu futuro...

DESMANTELAMENTO ALFANDEGÁRIO EUROPEU. mAS ESTÁ TUDO DOIDO ?

Generosidade à custa alheia

A União Europeia está em vias de proceder à revisão do generoso sistema de vantagens comerciais (redução ou eliminação de taxas de importação no acesso ao mercado europeu) que há muito concede unilateralmente aos países em desenvolvimento.
Mas como mostro aqui, a proposta da Comissão Europeia deixa muito a desejar, visto que nem privilegia os países mais pobres nem salvaguarda devidamente os interesses da indústria europeia, incluindo a portuguesa.

ACTA

Está em marcha na Internet um movimento de contestação do ACTA (Anti-counterfeiting Trade Agreement, ou Acordo Comercial Anticontrafacção) negociado entre a União Europeia e outros países desenvolvidos para tornar mais efectivo o respeito pelos direitos de propriedade intelectual (direitos de autor, marcas, patentes, etc.) no comércio internacional.
Nesta entrevista esclareço as opções possíveis do Parlamento Europeu para lidar com dossiers como este.

DELENDA MADEIRA EST!

“Alberto João Jardim vai sair sem pagar a conta”

• Daniel Deusdado, Jardim. Milhões. 1500:
    ‘Alberto João Jardim vai sair sem pagar a conta. Deixará o exemplo de que o crime de gerar dívida às escondidas compensa e que as vitórias eleitorais valem tudo. Disse-se "vergado" pelas condições que lhe foram impostas por Lisboa para o salvarem de uma humilhante bancarrota mas sacou mais 1500 milhões de euros. E, vai-se a ver, o empréstimo do Governo central à Madeira tem um período de carência que faz com que as prestações só comecem em 2016! João Jardim sai em 2015... E não sei se ouviram o que ele disse com atenção... "Investimentos feitos na hora certa", em "obra que já ninguém retira ao povo madeirense". Toma lá e embrulha. Trás-os-Montes nunca mais tem a auto-estrada porque o túnel do Marão custa 350 milhões. Jardim rapou cinco vezes mais num ápice. Tire-se-lhe o chapéu. E disse mais: em 2014 até já terá superavit no Orçamento!!! Depois de lhe oferecerem 1500 milhões! Que ele só começa a pagar em 2016! Em terra de cegos quem tem um olho é rei. (…) A dívida total da Região Autónoma da Madeira ascende a 6238 milhões de euros. É bom que se repita muitas vezes até que se fixe: a dívida da Madeira (seis mil milhões) é apenas 25% menor que a das 308 autarquias do continente todas juntas (oito mil milhões). Todas juntas, ok? As 308. (…) "O actual Governo da República, apesar de emparedado ante a desgraçada herança recebida e as imposições internacionais, respondeu positiva e afirmativamente ao nosso pedido de assistência financeira". Jardim a elogiar Passos... Ring a bell? Passos Coelho, portanto, amochou. Todos amocharam. Alguém disse um dia o essencial: "O senhor não precisa de elogios, a obra que realizou ao longo destes anos fala por si". Foi Cavaco Silva, encomiástico-majestático, durante uma visita à Madeira. Pois muito obrigado, senhor presidente. Eu não diria melhor. Sobre como chegamos aqui.’

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Não esperem pela herança do TIO SAM

Atacar o problema da sustentabilidade orçamental dos Estados Unidos não é incompatível com o objetivo de garantir que a retoma do crescimento económico prossiga.
Os decisores em assuntos orçamentais devem evitar “dificultar desnecessariamente a retoma económica em curso”, disse quinta-feira Ben Bernanke, o presidente da Reserva Federal (o banco central norte-americano) perante a Comissão de análise do orçamento da Câmara de Representantes dos Estados Unidos. “Felizmente os dois objetivos de alcançar uma sustentabilidade orçamental no longo prazo e de evitar ventos contrários adicionais no plano orçamental que prejudiquem a retoma económica em curso são totalmente compatíveis – aliás, reforçam-se mutuamente”, sublinhou.
Particularmente perturbado
Nesta intervenção perante os congressistas em Washington DC, o presidente do banco central manifestou-se preocupado com dois problemas críticos da economia americana – o disparo no desemprego de longa duração (que já domina 40% dos desempregados), um número que o deixou “particularmente perturbado”, e o trilho orçamental insustentável.
Bernanke referiu que o sector empresarial está a exportar e a produção industrial está a crescer, mas esse ponto forte da retoma americana em curso não se traduz no emprego.
Possibilidade de uma crise orçamental súbita
Por outro lado, a “dinâmica [do défice] é claramente insustentável”, frisou o homem forte da Reserva Federal. O défice público será de mais de 4% do PIB no ano fiscal de 2017, disse aos congressistas, mesmo partindo do princípio que a economia estará, então, próxima do pleno emprego.
Nesta dinâmica pesa sobremaneira o envelhecimento da população norte-americana e o disparo dos custos da saúde. A forma de tapar este buraco tem sido o recurso ao endividamento externo com implicações previsíveis: “uma parte substancial do nosso rendimento futuro terá de ser devotado ao pagamento de juros aos detentores estrangeiros de dívida federal”.
Bernanke não colocou de lado inclusive “a possibilidade crescente de uma crise orçamental súbita”, se a trajetória se mantiver. Colocar a política orçamental num caminho sustentável “é uma prioridade de topo”, avisou.