domingo, 5 de abril de 2015

DO BURN-OUT AO TÉDIO ( ou o Meu Ensaio Sobre o Fim da Nossa Idade )
"Os ritos culturais que se formam no decorrer da História - não são incorporados no património hereditário; são transmitidos pela tradição e cada indivíduo tem de os aprender de novo. Se se pretende estabelecer uma fronteira entre o "animal" e o homem seria precisamente aqui que ela poderia ver-se . É verdade que nos animais uma experiência individualmente adquirida se transmite igualmente por ensino e aprendizagem, dos indivíduos mais velhos aos mais novos. Mas essa tradição só existe autenticamente nas espécies animais em que uma boa capacidade de aprender se encontra aliada a uma vida social altamente desenvolvida (....) ,O elemento indispensável que estas tradições animais muito simples têm em comum com as tradições culturais é o hábito. Preservando com tenacidade o que já foi adquirido, este desempenha um papel análogo ao do património hereditário na formação filogenética dos ritos".
( Konrad Lorenz )
1 -Aqui há uns meses atrás começei a ter falhas de memória para factos recentes , a sentir um cansaço inexplicável, a ter um sono de tal modo plúmbeo que dormia toda a tarde, e até passei a adormecer a ver filmes às nove da noite, e , sobretudo a imergir num estado estuporado de estupor que quebrando a minha vontade me tornava um inútil. Mas pior, esquecia palavras comuns, obrigando-me a ir às escondidas ao dicionário em busca delas , e ainda pior, não sentindo qualquer vontade sobre o quer que fosse sem que isso me incomodasse muito, desinteressando-me do mundo ( deixei de ler o Expresso , o meu maior culto, sem que isso me incomodasse ), de ver filmes , de querer saber, de me preocupar com os outros, de me emocionar com nada.
Lembrava-me muito vagamente que se calhar aquilo era um Alzheimer em início e num determinado dia tive a elação suficiente para comunicar formalmente à minha mulher que devia estar a começar um Alzheimer mas que não tomava o famigerado Aricept a 5mg porque me lembrava de experiências antigas de quando exercia psiquiatria, de que aquela droga melhorava facilmente o doente, para depois de poucos meses o obrigar a dobrar a dose e finalmente levar a família a assistir à sua queda psicológica a pique. Portanto , disse eu à minha mulher, poupava o medicamento para uma fase mais adiantada da doença.
Pouco depois do aviso familiar dramático , tive a sorte de uma colega médica pneumologista me fazer três perguntas e declarar :- " o que tu tens são apneias de sono e vais fazer o competente exame diagnóstico !". E assim foi. E quando finalmente veio o resultado em letra grossa e preta eu tinha um sindroma de apneia do sono grave, com situações em que numa hora ( de 60 minutos - que é o costume , como é sabido ter 1 hora ) eu só respirava uns 10 minutos. Quer dizer eu não oxigenava os neurónios.
Começei também a ter sentimentos de estranheza da realidade envolvente a que chamamos desrealização , mas não cheguei ao ponto de ter sentimentos de estranheza sobre mim a que chamamos despersonalização - a qual já tinha tido numa muito envolvente relação sexual a qual me meteu medo a tal ponto que nunca mais quis ver a minha amante. E , daqui nasceu em mim uma espécie de clareza na diferença entre um demente ( Alzheimer ) onde o doente pode dizer " quando eu era eu ", sem angústia e sabendo que é o mesmo doutra maneira , e o ser psicótico do "quando eu era mim" ) sentindo que naquele momento ( porventura orgástico ) é mesmo outro, de tal modo que o que se passa à volta é voluntariamente indiferente.
Deste modo e com tais exteriências eu acho que fiquei a saber como se sente um demente e um psicótico. Em qualquer dos casos não senti tédio...
2 -Quando por volta de 2003/4 , fui convidado para no Alentejo fazer uma conferência para psiquiatras de todo o país subordinada ao tema " qual a doença mental será prevalecente no sec. XXI", falei do TÉDIO.
Achei que o tédio se iria transformar em coisa tão pesada que ganharia foros de doença mental. Recordo que estavamos instalados numa das melhores Pousadas do Alentejo , que era previsto eu começar a Conferência após o jantar por volta das dez da noite - o que aconteceu - e acabar por volta das 11,30 - o que também sucedeu. O que não estava previsto era que depois das perguntas e minhas respostas, a discussão cada vez mais acalorada dos meus colegas se prolongasse até às três da madrugada.
A coisa foi continuando com a maioria dos meus colegas a considerarem que tédio sempre existira e que por mais modernices que o novo século troussesse com ele a coisa não seria diferente.
Eu tinha tentado explicar que a vida familiar, profissional e social iria sofrer mudanças demasiado grandes para que o tédio antigo tivesse muito que ver com o que aí vinha , mas a minha ideia dificilmente passava. Diziam-me, basicamente , que o que iria acontecer era um aumento do stress mas que isso nada tinha a ver com o tédio.
Eu expliquei que -do que se conhecia da fisiologia - o stress era uma resposta do organismo a uma sobrecarga de "problemas" de todo o tipo, mas a generalidade deles dizia que era a mesma coisa. Defendi que o stress era uma resposta do organismo com um mediador celular que era sobretudo a cortisona e que quando alguém submetido a um espaço temporal grande de estimuladores de stress, esgotava a sua capacidade de produzir cortisol e outras substancias que o suportavam como a testosterona , a partir do esgotamento destas aquilo que se poderia prever era aquilo a que antigamente se chamava depressão de esgotamento e mais actualmente esgotamento por stress. E também fiz finca-pé em que alguém colocado em situações de se ultrapassar a si mesmo no trabalho ou "na performance " familiar, social ou económica em exclusividade ou muito predominantemente numa elas , cairia necessariamente numa falta de prazer total ( mediada por um neuro-mediador chamado dopamina que não se re-produz , como tudo na vida, indefinidamente) e que pela sua falta geraria um estádio de espírito de tédio crónico que , por isso, de tão crónico, seria doença mental. E por ali nos quedamos -nessa noite sem tédio nenhum...
3- Na verdade a impressão com que fiquei é que no caso da experiência sexual a dimensão que imperava era brutalmente mística, de fusão com a outra pessoa e o sumiço do mundo em redor, com a consequência da minha individualidade se dissolver em nenhures - será coisa assim que sentem os esquizofrénicos descompensados ?
Por outro lado nesta minha recente experiência de largas semanas de indiferença por causa da apeneia do sono , o sentimento era muito próximo da apatia -que se referia muito mais aos outros e à realidade envolvente do que a mim mesmo.
Aqui não resisto a socorrer-me da Retórica de Aristótoles. Nós passamos a vida num eterno diálogo, mais ou menos consciente entre o nosso Eu ( o Je dos franceses ) e o nosso mim ( o moi dos mesmos franceses), sendo que o EU é uma estrutura de dentro para fora e o MIM uma outra de fora para dentro da nossa identidade. Mas ambos são necessários a essa identidade. Ora que nos ensinou Aristóteles?
Um dos dos principais elementos do CORPUS ARISTOTELICUM É A PSICOLOGIA. E é aí que nesta secção ele inclui: DA ALMA e os PARVA NATURÁLIA que contém 8 pequenos tratados ( e reparem agora nos seus nomes ): " da sensação e do sensível", "Da memória e da reminiscência", "Do sono", "Das insónias", "Da adivinhação pelo sono", Da vida longa e da vida breve", "Da vida e da morte", e ,finalmente...., "Da respiração"!!!
Se isto, sabendo nós que as apeneias do sono matam, provocam mau dormir (insónias ) e perturbam a memória como ficou dito no meu ponto 1., se este homem, Aristóteles não era um génio eu , então, não sei o que é um génio !. E a retórica aristotélica apela à audiência em três frentes: o Logos, o Pathos e o Ethos, sendo que a credibilidade do que dizemos e manifestamos radica no Ethos; as emoções e os afectos dos outros a quem nos dirigimos é o seu Pathos; e a densidade e solidez da razão lógica estão no Logos. E é na dialética que estes três jogadores jogam o jogo da vida , entre o nosso EU e o nosso MIM, que a retórica nos prende a atenção e nos afasta do Tédio.
Vem isto a propósito de eu em ambas as experiências ( a sexual e a resultante das apneias do sono ) ter visto afectados e diminuídos o Ethos, o Pathos e , por consequência, o Logos : daí os sentimentos de despersonalização e desrealização e consequente ausência de vontade. Mas não senti tédio, o que chama a atenção para que este sentimento possa ser de qualidade muito diferente de todos os outros e tudo o mais que da psique conhecemos.
4- Dado que a vontade é alavancada pelo conhecimento, que o conhecimento é alimentado pelo informação que nos chega, que o conhecimento assim gerado define os nossos desejos e a sua importância para nós, e que são os desejos que comandam os nossos actos , poder-se-ia dizer que " o viver habitualmente " de Salazar , ou como também disse Fernando Pessoa o " viver quotidianamente todos os dias ", seriam uma expressão máxima de tédio.
Todavia não foi o que aconteceu. Realmente a informação sendo necessária para o conhecimento ( que por sua vez nos faz desejar coisas e por isso nos faz mover ) pode ser inconveniente, paradoxalmente . Ela pode não servir para nos trazer conhecimento em duas situações antagónicas : quando não chega por ser muito pouca, ou...quando é excessiva e provoca uma espécie de saturação do Eu e do Mim. No primeiro caso não tendo sobre que pensar porque outro pensa por nós, não tendo que escolher porque outro escolhe por nós, o nível de vigilidade com que vivemos a vida é muito baixo e a lucidez tende a ir de férias: foi exactamente isto que aconteceu no século passado em praticamente toda a Europa com os dez anos de ascenção do nazismo ao Poder ( na guerra estavam todos bem vigis ...) e na Rússia durante todo o consulado estalinista - situações intermédias desse tempo histórico como o salazarismo português e várias outras ditaduras um pouco por toda a Europa, não vivendo sem total informação, devem ser excluídas deste grupo.
Não creio que nos próximos tempos possa haver uma situação análoga , mas penso realmente que uma informação massiva, exagerada, incorrecta ao lado doutra correcta mas indistinguíveis na sua credibilidade, podem provocar uma saturação do Eu e do Mim acabando-se o diálogo que como disse acima alimenta a nossa vida interior e nos faz querer fazer coisas: será o fim da retórica do Ethos, do Pathos e do Logos.
Quando muita se questiona porquê um povo tão civilizado como o alemão se deixou embalar nos fumos do holocausto ou outro povo donde provieram génios da cultura universal, como o russo, se deixou adormecer nos confins da selva dos goulagues siberianos, a resposta está aqui: conhecimento parcimonioso da realidade, fraqueza da retórica aristotélica como consequência, e um enorme e plúmbeo tédio de morte !
5- Comecei por dizer que o tédio - defendi eu isto em Évora - seria a mais epidémica doença mental do séc . XXI.
Na realidade tudo poderia ser doutro modo se a retórica acordasse a vigilidade e a razão. Um bom exemplo é o que faz a cafeína , o álcool e o tabaco. A cafeína é absorvida no estômago e intestinos muito rapidamente, atravessa a barreira hemato-encefálica e é por isso que este alcalóide é um estimulante quase perfeito uma vez que ao fim duma hora atinge o seu valor máximo de criação de vigilidade. Chegado ao cérebro o café bloqueia um aminoácido - a adenosina, que é grandemente responsável pelo nosso sono - e desaparece do cérebro ao fim doutra hora.
Ora com estes poderes mágicos o café mudou para melhor toda a nossa vida. Onde em plena primeira revolução industrial os operários ingleses saiam das fábricas para se emborracharem com cerveja para na madrugada seguinte se apresentarem ao trabalho em deficientes condições, passou-se pelo uso do café matinal a tolerar muito melhor os horríveis horários de trabalho. Os cafés tornaram-se moda na Londres de 1700, onde para além de operários se começavam a juntar em tertúlias agitadas pensadores de todo o tipo , até que Carlos II mandou encerrar centenas. Encerraram em Londres, abriram em Paris, onde no fim do séc XVIII se contavam por centenas e onde nos cafés Royale ou no La Défence homens como Robespierre, Rousseau, Napoleão, duque de Richelieu, ou Victor Hugo e Gautier punham em causa este mundo e o outro: e a revolução francesa e burguesa acontecia a seguir...como é sabido.
Note-se que nestes cafés toda a gente fumava e que a nicotina também tem o seu efeito fisiológico preciso: modera o temperamento e expande a atenção além de - e isto é o mais importante - duplicar a taxa de metabolização da cafeína. Ou seja, permite-nos beber duas vezes mais café do que o que beberíamos sem fumar. Ou seja, o tabaco permitia-lhes tomar café o dia todo , e este permitia-lhes falar e pensar todo o dia. E desta conjugação espantosa resultou em grande medida o Iluminismo. Mais tarde, apareceu o absinto que ajudava a que as ideias subissem upa, upa! E veio a revolução bolchevique de 1917.... Só para melhor ilustração: em Viena de Áustria ainda hoje ainda existe um café que é de visita turística obrigatória , o Café Central, e neste café um refugiado russo de seu nome Trotsky sempre seguido pela polícia política do Império, sentava-se diariamente a escrever proclamações e manifestos para a Rússia. Um dia em 1917 um alto-funcionário dos Estrangeiros do governo entrou esbaforido no gabinete do ministro e atira-lhe:"_ Excelência ....Excelência ....A revolução rebentou na Rússia!". O ministro enfadado, afastou-com um gesto de mão:" -Vá-se embora ...A Rússia não é um sítio em que rebentem revoluções. Aliás, pelo amor de Deus, quem é que seria capaz de fazer uma revolução na Rússia? O Herr Trotsky do Café Central ?"....
6- Pelo exemplo do nazismo e do estalinismo se pode ver que é em situações sociais muito pouco criativas ( compare-se com a febril agitação que os cafés permitiram ) mas sim em situações ronceiras ou rotineiras que o tédio pode surgir.
Vivemos, salvo melhor opinião, nas permícias duma dessas fases em que o torpor se instala. Ainda assim há um sinal prodrómico , um sinal de emergência , de que o tédio pessoal e o social ( já doença epidémica ) pode estar próximo : esse é o dos comportamentos pessoais tão rotineiros, tão rotineiros que passaram à categoria nosográfica de comportamentos obsessivos. Aliás nestes casos as pessoas tendem a melhorar quando são medicados com fármacos com dopamina ( anti-depressivos e mediadores do prazer - antítese do tédio ) e serotonina ( outro neuro-mediador sobretudo anti-obsessivo ).
Ou seja, parece-me cada vez mais que se aceitarmos viver vidas focadas num único objectivo, se não dispersarmos, treinarmos a disperção da nossa atenção mudando sempre que pudermos o que fazemos e como fazemos, o perigo espreita à porta.
Mas isto não é fàcil. Nos dois exemplos históricos de tédio nazista e estalinista podemos dizer que os seus mentores começaram por apagar os valores tradicionais quer alemães quer russos. Um só objectivo emergia das políticas estatais : a estimulação do capitalismo. É verdade , porque num caso o materialismo organizava-se à volta do nascente capitalismo financeiro, e no outro também chamado capitalismo de Estado, o que se procurava era o mesmo embora com diferentes destinos.
Se era preciso apagar todo e qualquer valor espiritual, estético ou ético em detrimento de tudo o que ajudasse ao aumento da produção, então não se hesitava. Por isso, quando agora os valores reinantes são o consumismo da matéria ou dos afectos, o aumento da produção e da produtividade a todo o custo, a aceleração do tempo histórico com a histérica necessidade de empreendedorismo ( esquecendo que a maioria das pessoas só pode e é capaz de ser feliz a trabalhar para outrem nem que seja por necessidade de protecção e serenidade ), a ostracização da espiritualidade nas suas diversas formas ( que é o contrário do materialismo espírita ), a ausência da busca dum sentido para a existência própria, e também o descrédito do altruìsmo e da compaixão, a busca sistemática da corrida no tempo cronológico em detrimento do sentir o pulsar do tempo vivido, o pseudo prazer da competitividade pela competitividade, e o corrupio da imitação no comportamento próprio da manada, sempre mimetizando os gostos materiais da manada chame-se ela o gosto pelo topo de gama ou a inveja do carro ou das férias ou dos tènis do animal vizinho do lado, correndo todos no mesmo mês para os mesmos sítios, oferecendo todos a mesma prenda nas mesma datas pela obrigação de não ser segregado e degredado pela manada, corrompendo porque "quem não corrompe como os outros é burro" - então estamos todos a criar as condições aparentemente assépticas para que o Tédio seja mesmo a doença do século XXI.
7- Aqui há tempos fui sendo abordado por colegas médicos de especialidades variadas que se queixavam de desinteresse pelas coisas, desesperança ....enfim depressão!
Em dois casos , todavia vinham com o diagnóstico na ponta da língua :-" Estou com um burn-out !". Afinal o que é o "burn-out" ?.
A partir de 1975 , ano em que a etologia se viu reconhecida como ciência quando o seu fundador Konrad Lorenz ganhou o Prémio Nobel da Medicina, muito do" brainstream " médico tratou de ler as suas obras , sobretudo duas das suas pérolas : A Agressão - uma história natural do mal ", e uma outra em que Lorenz já ensaiava filosofar sobre o que tinha aprendido com os animais não humanos e que sai em português com o sugestivo título , " Os oito pecados mortais da civilização". Nos anos setenta começou pois a surgir na América em artigos psiqiátricos a expressão "burn-out" como quem diz aquele que se queimou e já está estorricado pelo seu trabalho exagerado. Nada portanto que não estivesse descrito na expressão "depressão de esgotamento " ou não coubesse também na "depressão de ".por descarga " ( inicialmente descrita por Burger-Prinz ). Esta última esteve-me na pele durante semanas aquando do meu exame de saída da especialidade de psiquiatria . O sentimento era o de um esvaziamento existencial mais do que de tristeza, uma indiferença pelo ajuizamento alheio em relação à minha excelente performance no exame. Recordo-me que o que mais me tornava perplexo era eu não sentir grande coisa quando me davam os parabéns pelo excelente exame que tinha feito e tinha preparado dois meses antes em singular exclusividade - pondo em suspenso todos os outros interesses que me tinham impulsionado na vida. E eu não compreendia porque não me sentia feliz e , em vez disso sentia um vazio indizível , uma falta de ethos de mim, uma falta de pathos dos outros, uma suspeita falta de logos em mim , como se todo o esforço de dois meses não tivesse alterado coisa nenhuma na minha vida que valesse a pena. Mais tarde , a clínica ensinou-me que estado semelhante ocorria frequentemente com muitos aposentados do trabalho como se as preocupações passadas no período de trabalho tivessem , por terem acabado , posto à vista do próprio aposentado o vazio que era a sua vida e andava disfarçada até então, ou em casos de perda como em divórcios em que sem as preocupações familiares que tinham desviadas as atenções dos verdadeiros aspectos importantes ontológicos da vida, a realidade seca da vida ficava iluminada. É claro que nuns casos, estes estados catalogados como depressivos eram relativamente de curta duração, mas noutros eram como que assassínios ( portanto definitivos) da existência ao Devir e ao futuro. Isto dependia em muito do tipo de personalidade porque quando a pessoa exibia muitos traços de meticulosidade, perfeccionismo, necessidade de se ser admirado pelos outros, de ordenalidade, forte carga de auto-exigência, hiper -exigência da consciência moral, individualismo, egocentrismo, escrupulosidade, seriedade desmedida, como desmedida auto-exigência no trabalho, preocupações enormes com o futuro financeiro garantido , acompanhados pelo desinteresse por tudo que parece pequeno , prazenteiro ou algo fútil ( Tellenbach , 1976 )- então este quadro clínico podia ser crónico.
8- Mas tudo isto podia ocorrer em situações de perda, situações de mudanças bruscas na situação de vida, o que pressupõe uma responsabilidade e esforço para que o sujeito se adapte à nova situação.
O que é particularmente pesado ( e grave ) hoje porque a aceleração do tempo histórico - como já referi atrás - obriga cada vez mais gente a novas exigências. Todas as mudanças bruscas nos hábitos de vida como as que ocorrem em mudanças de locais ou postos de trabalho, , mudanças no modelo de família, emigração, mudanças de profissão ou aposentações sobretudo se precoces - independentemente do tipo de traços de personalidade que podem ser diferentes dos escritos no ponto 7. - provocam em maior ou menor grau esta espécie singular de frustração indiferente e apática, aethosica e agnosica a que chamamos TÉDIO - que sendo prolongado vai passar a patológico, ou seja doença mental, desde que nada disto ocorra por decisão própria, livre, meditada e prazenteira.
9-E assim foi que considerei o burn-out , auto-diagnosticado pelos meus amigos médicos e outros que o não diagnosticaram, como a essência do processo de TÉDIO em marcha. Tédio que defino como esse estado afectivo de pessoal demissão grande do desejo de ter vontades - por mais pequenas que elas sejam.
10- Ora se há característica própria da espécie humana é a de ter desejos de ter vontade para mudar a tradição. Na verdade não há tradição (( uma das mais importantes condições para que a espécie humana sobreviva ) sem uma contínua inovação . Só que essa inovação tem que ter conta , peso e medida , não pode ser de supetão.
O homem integral que preserva uma axiologia espiritualisma em contradição flagrante com com o esquema valorativo da sociedade de consumo, não passa hoje de um enquistamento da sociedade moderna. Este testemunho supramaterial vai sendo cada vez mais difícil de manter, uma vez que a tentação dos reinos da quantidade e da facilidade, aliada à vertigem sexual cuidadosamente construída, se têm revelado muito mais fortes que o exercício da ascese, da moderação, da temperança, da disciplina interior e da vida com parcimónia. Até a nível científico.
No que toca à relação biológico-social/cultural estamos perante uma ruptura.O antagonismo entre os imperativos culturalmente ditados por uma civilização de massas e as necessidades profundas de carácter biológico do animal humano não param de se avolumar ( o sedentarismo provoca por exemplo a obstipação fisiológica e etc.; a alimentação fast-food , ou a limitação de refeições a horas necessárias leva a discordâncias hormonais graves , o" chico-espertismo" como suposta condição de sobrevivência produz toda a casta de situações de stress crónico e suas consequências, a intoxicação do ar que respiramos faz bem pior aos pulmões que o rapé ou cachimbo, o peixe com chumbo e a carne com hormonas envenenam, etc, etc,etc. ).
Na verdade a ciência etológica demonstra que o homem é condicionado a nível filogenético pelas mesmas forças instintivas que motivam os primatas e outros mamíferos. Somos, de facto , caçadores de savana, de espaços abertos, ou seja seres que gostam de viver e sempre viveram em grupos de reduzidas dimensões. Quando vamos ver filmes ao YOUTUBE percebemos que não é este o caminho para a sobrevivência da espécie. E o TÉDIO , se calhar é o primeiro sinal do fim da nossa idade.
josé carlos couto soares pacheco, vila do conde, 3 e 4 de Abril de 2015
( ler em no blogue ciclóstomo de couto soares pacheco ou em facebook de jose carlos pacheco).

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

QUANDO OS BRICS ACABARAM

As expetativas dos investidores vão estar centradas a 5 de setembro na reunião mensal do conselho de governadores do Banco Central Europeu (BCE) em Frankfurt e no impacto da crise síria na reunião do G20 em São Petersburgo, na Rússia, nesse mesmo dia e no seguinte. Depois da crise egípcia, o fator geopolítico decorrente da situação no Sul do Mediterrâneo, no Magrebe e no Médio Oriente, continua presente. A gestão da crise síria aguarda, no entanto, uma decisão do Congresso norte-americano, que reabre a 9 de setembro. No entanto, a reunião, esta semana, do G20 na Rússia enviará sinais aos investidores internacionais sobre os alinhamentos de grandes potências numa eventual evolução de uma guerra civil para um conflito internacionalizado. Muitos analistas e académicos continuam à espera que o BCE se torne um banco central na plena aceção da palavra, pelo que as palavras de Draghi, o seu presidente, serão escrutinadas na conferência de imprensa que se realizará na próxima quinta-feira. No entanto, a reunião marcante para o andamento dos mercados financeiros globais ocorrerá a 17 e 18 de setembro, quando a Reserva Federal norte-americana (Fed) dará sinais sobre o seu calendário em termos de abrandamento da política de “estímulos” monetários. Muitos analistas apostam que a Fed procederá já em setembro à redução da injeção de liquidez, o que já é designado por “septaper” (redução em setembro). O impacto global das decisões que a Fed tomar no segundo semestre deste ano continuará a fazer-se sentir em particular nas economias emergentes – nomeadamente um grupo formado pela Índia, Indonésia, Brasil, Turquia e África do Sul. O “teste” de resistência destas economias – três delas consideradas BRICS – decorrerá ao longo deste segundo semestre. A partir da reabertura do Congresso norte-americano a 9 de setembro, poderá ocorrer, também, uma radicalização política em torno da autorização para o aumento do teto da dívida federal. O governo federal corre o risco de falta de financiamento a 1 de outubro, se novo acordo bipartidário não for alcançado nas duas câmaras do Congresso

ALEMANHA E ITÁLIA ...E UM OUTUBRO MUITO QUENTE

As eleições legislativas na Alemanha a 22 de setembro revelarão se a chanceler Merkel consegue ou não um terceiro mandato e quais as repercussões dos resultados nas urnas no andamento dos resgates aos países periféricos da zona euro. Em foco estará nomeadamente a discussão a partir de novembro de uma injeção adicional na Grécia, a ser aprovada pelo Eurogrupo, no sentido de tapar os buracos de financiamento para 2014 e 2015 e de permitir a redução do peso da dívida grega para uma trajetória aceitável pelo Fundo Monetário Internacional. Essa possível intervenção tem sido designado de “terceiro resgate”, apesar do segundo programa de ajustamento em curso só terminar em 2016. Portugal verá o mês de setembro marcado pelo início simultâneo da oitava e nona revisão do programa de ajustamento pela troika e pela amortização da obrigação do tesouro que vence a 23 de setembro, com um saldo de 5,6 mil milhões de euros. Este vencimento não é considerado crítico. O momento crítico está adiado para junho e outubro de 2014 e, depois, para outubro de 2015. No conjunto dos dois anos, haverá que amortizar 27,1 mil milhões de euros, com uma primeira etapa de 5,9 mil milhões em junho de 2014. A questão do financiamento antecipado dessas operações no mercado obrigacionista continua em aberto, pois o programa de resgate iniciado em 2011 terá entretanto terminado em meados do próximo ano, e os sinais que vêm do mercado secundário não são atualmente positivos (com yields das OT a dez anos em 6,7% no final de agosto). Os analistas apontam o mês de outubro como politicamente “quente” nos países periféricos do euro em virtude da discussão e aprovação dos orçamentos de Estado para 2014. No caso português, deverá ser apresentado no Parlamento até dia 15 de outubro. Para Marc Chandler, o “desafio imediato mais sério” tem a ver com a evolução da situação política em Itália, onde o partido Povo da Liberdade poderá retirar o apoio ao governo de coligação, se Sílvio Berlusconi for expulso do Senado, na sequência da sua condenação judicial em agosto. No mercado de commodities a atenção está focalizada na evolução das cotações do barril de Brent em virtude da crise síria. Durante o mês de agosto, o preço do barril subiu de 81,95 para 86,29 euros, segundo os dados da finanzen.ch, que fornece estas cotações na moeda única. Uma subida de 5,3%. Na última semana de agosto, o preço do barril de referência na Europa aumentou de 82,78 para 86,29 euros, refletindo a escalada na crise síria. Desde o golpe militar no Egito, a 3 de julho, o barril aumentou mais de cinco euros. Em janeiro, no entanto, o preço estava em 85,14 euros.

terça-feira, 23 de abril de 2013

PARA O MINISTRO ALEMÃO DAS FINANÇAS, SCHAUBLE, NO PRÓXIMO RESGATE VÃO-NOS AOS DEPÓSITOS BANCÁRIOS...

“A participação de acionistas, detentores de títulos subordinados e, depois, depositantes sem garantia de depósitos vai passar a ser a norma quando uma instituição financeira cair numa situação difícil”, afirma Wolfgang Schauble, ministro das Finanças da chanceler Merkel, na edição de hoje (20 de abril) do semanário económico alemão “Wirtschaftswoche”. “Se não for assim, há um risco moral. Os bancos obteriam enormes benefícios em negócios de risco, mas, em caso de falência, as perdas seriam socializadas, ficariam a cargo de toda a sociedade – e isso não pode ser”, acrescenta.
Schauble é considerado, juntamente com o Fundo Monetário Internacional, como o artífice do “modelo cipriota” (template) de resgate no que respeita à reestruturação do sector bancário local, um resgate que, pela primeira vez, exigiu que os depositantes com depósitos acima de 100 mil euros vissem hair-cuts muito elevados aplicados com vista a contribuírem para a gestão da falência do banco Laiki e para a recapitalização e reestruturação do Banco de Chipre.
O ministro alemão veio repor na ordem do dia as declarações polémicas ao jornal “Financial Times” e à agência Reuters por parte do presidente do Eurogrupo, o ministro das Finanças holandês Jeroen Dijsselbloem, logo na madrugada (26 de março) da reunião do Eurogrupo que aprovou o modelo final de resgate de Chipre. “Quanto ao substancial, Dijsselbloem foi criticado de forma injusta. Mas não por mim”, diz Schauble, distanciando-se do coro de críticas à ideia transmitida pelo holandês de que a solução para Chipre passaria a ser o “modelo”. Um dia depois, o holandês veio dar o dito por não dito, repetindo que se trataria de uma solução “única”. Mas, agora, o poderoso ministro das Finanças de Merkel voltou a colocar o “modelo” nas linhas.
No entanto, no final de março (dia 30), o ministro das Finanças alemão teria dado a entender o contrário. Segundo o jornal “Cyprus Mail”, Schauble teria reafirmado em entrevista ao jornal alemão “Bild” que Chipre era mesmo “um caso especial”, distanciando-se de Dijsselbloem. “Chipre é e continuará a ser um caso único especial. Os depositantes na Europa estão seguros”.
Nem mais um euro para Chipre
Schauble, na mesma entrevista dada hoje a Christian Ramthun e Henning Krumrey, afirma que a Alemanha não autorizará nem mais um euro para Chipre além do empréstimo europeu (€9 mil milhões) e do FMI (mil milhões de euros) num total de 10 mil milhões de euros. Aliás, o semanário alemão puxou esta afirmação para título. Mais do que 10 mil milhões de empréstimo “põe em causa a sustentabilidade da dívida de Chipre”.
Ora, recentemente, novos cálculos sobre as necessidades de financiamento de Chipre até ao primeiro trimestre de 2016, para evitar a bancarrota, apontam para 23 mil milhões de euros, seis mil milhões a mais do que as contas inicias que apontavam para um pacote global de 17 mil milhões, em que sete mil milhões teriam de ser arranjados pelo governo de Chipre para resolver a reestruturação do sector bancário e outro apsectos. Mas Schauble diz que “tais números (23 mil milhões) nunca foram oficiais. Eles foram baseados em suposições preliminares, não oficiais”.
De um momento para o outro surgem 13 mil milhões para o governo arranjar (e não só os 7 mil milhões iniciais). Entretanto, o “Financial Times” aponta para um total mais baixo, de 20,6 mil milhões de euros. Para além do confisco nos depositantes (com depósitos acima de 100 mil euros) discutiu-se também a possibilidade de venda de parte das reservas de ouro do Banco Central de Chipre. Uma avaliação da sustentabilidade da dívida de Chipre realizada pela Comissão Europeia revelou a 9 de abril que Nicósia ter-se-ia comprometido a vender cerca de 400 milhões de euros de reservas de ouro “em excesso” no conjunto de 13,9 toneladas que o Banco Central dispõe. O Banco central desmentiu que estivesse a considerar tal venda. O impacto deste rumor no mercado do ouro, associado à ideia de que as vendas de ouro possam passar também a fazer parte do novo “modelo” de resgates no futuro, foi avassalador, com uma quebra do preço da onça de cerca de 160 dólares entre 14 e 16 de abril.
Parlamento cipriota votará MoU provavelmente a 26 de abril
As declarações de Schauble vêm na sequência da aprovação do plano de resgate de Chipre por 487 votos em 602 deputados, na quinta-feira, no Bundestag, Câmara Baixa do parlamento alemão. Ocorreu na mesma sessão parlamentar em que foi aprovada a extensão de maturidades dos empréstimos dos fundos europeus a Portugal e Irlanda no âmbito dos planos de resgate em curso. Por outro lado, o governo finlandês sobreviveu a um voto de confiança colocado pelo partido populista dos Verdadeiros Finlandeses que punha em questão o resgate a Chipre.
Entretanto, em Chipre o Memorando de Entendimento (MoU) com a troika será votado na próxima semana, provavelmente dia 26, depois do procurador-geral ter decidido que a votação era uma obrigação constitucional. Na quinta-feira passada, os deputados cipriotas aprovaram alguma da legislação necessária para o resgate, mas deixaram de fora alguns diplomas importantes.
Teme-se que, na próxima semana, possa não haver uma maioria de aprovação do MoU, o que requer 29 votos em 56 lugares. A Aliança Democrática (DiSi), o partido do presidente Anastasiades, e o Partido Democrático (DiKo), que suporta o governo, dispõem de 28 votos. Um ex-deputado do Partido Democrático é agora independente e desconhece-se o seu sentido de voto. Os comunistas (AKEL, que perderam a 2ª volta das eleições presidenciais), os socialistas e sociais-democratas (EDEK) e o Movimento dos Verdes (KOP) declararam oposição ao plano de resgate e especula-se que poderão votar contra contando com 25 votos, ainda que o governo do presidente Anastasiades acredite que se absterão.

SEGUNDO RESGATE DE PORTUGAL JÁ A CAMINHO....

MUNCHAU: Portugal will require a new programme, and there will ultimately be a significant degree of debt default, negotiated or otherwise
Wolfgang Munchau, German, 51, based in Oxford UK, founder of Eurointelligence and editor and columnist of the Financial Times, in an interview at Expresso weekly newspaper in Portugal, interviewed by Jorge Nascimento Rodrigues, 20 April 2013.
Main Topics
# «If you extend maturities for sufficiently long enough, and reduce interest rates towards zero, then forbearance turns into debt foregiveness. A seven-year extension is, however, not going to be sufficient. Portugal will require a new programme, and there will ultimately be a significant degree of debt default, negotiated or otherwise.»
# «I expect a new full programme, and that would not be consistent with the OMT. If I am wrong, I would expect a combination of precautionary credit line and OMT. »
# «Austerity continues in Europe, but I expect the extend to lessen a bit. What concerns me a lot more than the isolated austerity in the south – which is to some extent necessary, is the austerity in the north, which is not. The eurozone as a whole needs an expansionary policy, made of a strong element of fiscal expansion in the north, and moderate austerity in the south.»
# «I am getting more sceptical about the long-term sustainability of the eurozone. I see no chance that we will be overcoming the various debt and adjustment crises with the current crisis resolution framework. We will see a lot more default in the private and public sector, against external debtors, but also government default against their citizens, and I am not sure the latter is politically sustainable. As for the supposedly “genuine economic and monetary union”, I just don’t see it. The banking union will stop half-way. There will be a joint resolution fund, no joint deposit insurance.»
# «I think monetary financing of debt is not only illegal, but also very detrimental in the long run. The only thing that can overcome the crisis is a joint economic policy, where the most important econoimc policy decisions are centralised, where in turn, the burden of some of the existing debt stocks is shared. Plus a framework to manage default in the banking sector, and to manage sovereign default.»

quinta-feira, 4 de abril de 2013

É PRECISO ACABAR COM OS PARAÍSOS FISCAIS.

Os paraísos fiscais matam as nossas democracias

4 abril 2013
Le Monde Paris

Ruben L. Oppenheimer
Um grande estudo sobre titulares de contas “offshore” levado a cabo por vários jornais, incluindo “Le Monde”, revela a extensão internacional do fenómeno. Deve ser encarado como um sinal de alarme para a sobrevivência dos nossos sistemas políticos, considera a diretora do diário francês.
O que tivemos de ouvir, na sequência da convulsão financeira mundial de 2007-2008! As palavras de ordem sucediam-se: a finança internacional ia ter melhor regulamentação, os paraísos fiscais iam ser impiedosamente combatidos, acabava-se com os buracos negros de um sistema que dá cobertura a todos os abusos. As conclusões de uma reunião do G20 realizada em Londres surgiam como um poço de virtudes.
Os Estados desse círculo da elite mundial prometiam “medidas contra os paraísos fiscais”, arvorando a ameaça de sanções e garantindo, alto e bom som, que “a era do sigilo bancário [tinha] terminado”. Após a crise que agora abalou o Chipre, praça “offshore” privilegiada pelos oligarcas russos e outros amantes da opacidade na gestão dos seus negócios, eis-nos, em França, apanhados pelo turbilhão do caso Cahuzac, um escândalo estatal que põe em causa a integridade e transparência mais elementares, exigíveis a qualquer político, muito mais quando guindado a cargos de alta responsabilidade.

Rede tentacular

As notícias encadeiam-se, por vezes, a um ritmo vertiginoso. Para que fique claro: a investigação que Le Monde começa hoje a publicar em parceria com The Guardian, Süddeutsche Zeitung, Le Soir e Washington Post, dedicada ao mundo subterrâneo dos paraísos fiscais à escala mundial, ao seu funcionamento oculto e beneficiários de todas as esferas, não foi motivada pelos tumultos de Nicósia nem pelas trapalhices do [antigo ministro do Orçamento francês] Jérôme Cahuzac.
A investigação foi iniciada há vários meses. Baseia-se no acesso sem precedentes de um consórcio internacional de jornalistas de investigação a uma gigantesca base de dados, que revela o funcionamento subterrâneo do mundo dos “offshores”. São 2,5 milhões de ficheiros, que foram passados a pente fino, comparados e cruzados. O resultado é a exposição de uma rede tentacular da finança clandestina. Nesta massa de documentos, são mencionados dois bancos franceses. Bem como o ex-tesoureiro de campanha de François Hollande em 2012, Jean-Jacques Augier – que garante nada ter feito de ilegal ao recorrer a um parceiro chinês, através de intervenções “offshore”.

PIB conjunto dos EUA e do Japão

A exposição de casos individuais, por mais aliciantes que sejam, não deve desviar a atenção da questão de fundo: os paraísos fiscais são uma ameaça para a democracia. Minam o Estado de Direito, apostando na ocultação. São um maná para os defraudadores de todos os quadrantes. Promovem o desvio de recursos públicos, em Estados onde imperam o suborno e a corrupção. Neste mundo de uma criatividade jurídica que parece ilimitada, escondem-se valores colossais por trás de empresas de fachada. Personalidades endinheiradas mantêm aí o equivalente ao PIB conjunto dos Estados Unidos e do Japão.
Agora que este estudo vem a lume, ninguém poderá continuar a fingir que acredita que os dirigentes políticos, apesar do que afirmam, não tenham verdadeiros meios de atuação. É urgente reforçar a regulamentação, os meios de controlo, a cooperação transfronteiriça. A luta contra a lavagem de capitais passa por aí. E os bancos ocidentais amantes de esquemas obscuros dificilmente poderão poupar-se a uma resposta clara. Pelo menos, se quiserem que, em tempo de crise, seja dado crédito às suas profissões de fé sobre “ética”.